Na biografia sobre o autor de clássicos como "Vinhas da Ira" e "Ratos e Homens", Jay Parini não explica muito bem se as leguminosas avinagradas faziam mesmo parte do cardápio alimentar de Steinbeck. Em contrapartida, oferece ótimos instantâneos que, observados seqüencialmente, permitem ao leitor entender o quanto do homem e o quanto do escritor foram feitos no ataque eliotiano "ao inarticulado". Ou seja, no temerário ato de domar as palavras das altas exigências idiossincráticas de todo amante do verbo, que é o grande escritor.
Parini enumera os bicos de Steinbeck como caseiro e trabalhador braçal, enquanto batia seus contos furiosamente na máquina Corona sustentada por um engradado de laranjas. Em um desses empregos, no aquário de Tahoe, acabou conhecendo Carol, a primeira de suas três mulheres. A partir dai, nem Parini nem Steinbeck param mais. Aquele instala potente objetiva na rica trajetória deste. O relato acaba sendo lírico no conteúdo, graças às densidades psicológica e acadêmica capazes de registrar a vida do biografado como decorrência natural do diálogo de Steinbeck com o seu alter ego projetado no espelho do cotidiano:
"Escrever para Steinbeck era e permaneceu como um processo de autodescobrerta e crescimento pessoal "
Biógrafo
Jay Parini
Jay Parini, professor do Middlebury College, em Vermont, e autor de nove livros (entre eles a biografia romanceada de Walter Benjamim, lançada no Brasil pela Editora Record), vasculhou a correspondência de Steinbeck. Além disso, entrevistou amigos do escritor, analisou a obra do biografado e visitou lugares onde ele viveu.
O resultado é um texto enxuto, de agradável leitura, contendo, nas suas mais de 500 páginas, informes preciosos e determinantes do vetor principal dos 68 anos de vida de Steinbeck.
Grito de independência
Nascido em 1902, Steinbeck foi o único homem dos quatro filhos de um casal de classe média radicado em Salinas, Califórnia. Muito sensível e apesar de amado pelos pais, acabou sofrendo pelo desprezo materno tanto em relação ao seu ofício de escrever, quanto em relação ao pai (comerciante falido) e pelo isolamento deste em relação aos filhos. Entrou, sem muita vontade, para a Universidade de Stanford, matriculando-se em um currículo de artes liberais. Com freqüência irregular e notas abaixo da média, Steinbeck aproveitava o tempo livre para deleitar-se no acervo da biblioteca, fazer algumas amizades, cair nos prazeres de farras e muita bebida. Nos finais de semana, depois de anunciar aos colegas que iar sair, trancava-se no quarto de dormitóiro para escrever. Trocou o canudo de bacharel por uma bela lição: queria ser escritor e para isso precisava de independência financeira.