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| Politicamente incorreto chamar de resenha qualquer comentário sobre um livro de 74 páginas. Referir-se a ele como introdução também não procede. Afinal, qualquer tentativa de apresentar "O Homem Feito" de Fernando Sabino só poderia ser uma recomendação. Uma recomendação com a ressalva de sempre. O escritor sempre peca com seu leitores pelo reduzido número de páginas de suas obras. |
 Fernando Sabino
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Desta vez, o pecado foi o de escrever esse livro com 426 páginas a menos do que deveria ter como bandeirada inicial. Terrível heresia para com sua legião de fãs!
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 Editora Ática
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Para não fugir à regra anunciada, recomendo sim o livro de Sabino, cujo título poderia ser "O Homem Desfeito". Recomendo, hoje e sempre, com sol, sob lua e, principalmente, debaixo de água. Apesar de sutil, sua mensagem é de clareza cristalina. |
A trama narrativa é urdida a contrário senso. Ou seja, a tese é provada com as suas raízes quadradas apontando a linearidade de um homem em destroços, que se perdeu de sua criança por algum forte motivo, em alguma esquina da vida. Desesperançado, esse homem escala uma montanha íngreme, para isolar-se em uma cabana. Seu único desejo é o de "morrer completamente, sem deixar o menor sinal de haver existido". Mas, as coisas não se passam necessariamente assim. As surpresas se sucedem. A começar pela aparição relâmpaga de um molecote de seus 6 ou 7 anos.
Inicialmente, o homem se sente incomodado com a intromissão. Depois, ao ver que o menino mais some do que aparece, e mais corre do que fica, começa a sentir a sua falta, a ponto de montar uma armadilha para atrai-lo. Assim, meio no laço, começam os primeiros contatos do adulto e da criança.
Mas quem é essa criança que, apesar de tão pequena, consegue escalar a montanha inóspita e chegar à cabana de noite? Quem é esse menino a quem o adulto ao chamar recebe, no eco, a própria voz, mais fina, quase de criança? Quem é esse moleque que um belo dia aparece com o canivete que o adulto tivera quando pequeno?
Ele se chama Luis, o único nome da narrativa. É com o menino que o adulto passa a se divertir em pescarias, caminhadas e até mesmo colocando obstáculos à frente de um caramujo para testar-lhe a persistência de seu avanço.
Mas, em pleno blues da estória, aparece uma nota dissonante. Um velho amigo do adulto surge para acusá-lo de falar sozinho. A partir daí, os fatos se precipitam desfiladeiro abaixo, de forma surpreendente, até o adulto tomar uma decisão, no final do livro. Terá sido a decisão acertada? Terá o homem evoluído? A cada leitor, a sua sentença. O que podemos dizer, sem atropelar a surpresa da narrativa, é que, nas últimas páginas, tomamos consciência do porquê do desânimo inicial do personagem central. Por falar nisso, o personagem central, não seria, por acaso, o coadjuvante? Leia e julgue.
A moral da estória, do homem, da psicologia e da vida bem que poderia ser a seguinte. Quando o adulto perde a sua criança interior, fica desprovido do moinho de moer o vidro opaco das tristezas, fica incapacitado de transformá-lo em prismas de luz, catalisadores mágicos de infinitos arcos-íris.
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