Quem canta São Paulo hoje? Quem cuida da memória, da história, da glória, da cidade- musa paratodos? Você pode ouvir a voz do poeta-compositor Adoniran Barbosa: um panorama musical, da cidade que faz aniversário nesse janeiro de 2008. Na lembrança, pelas calçadas, por entre os bairros, nos bares de Vanzolini, em capoeiras ao relento, em malocas saudosas e, quem lembra, ainda, que num de seus sambas, a brincadeira era de guerra de pizza numa casa-cantina-restaurante no bairro da Bela Vista. Tudo isto, um pouquinho de SP, está nas canções de Adoniran Barbosa/AB (1910-1982).
Pelas ruas da cidade aonde ainda se pode fazer Ronda e se calar em dialetos de silêncio, quem sabe, possamos revisitar o Speranza com alegria, em trajes patéticos, para gentes de outra freguesia, mas que ainda pode ser glamour para quem canta províncias. Por que não? São várias São Paulos. Yes, Sim, quem sabe, a poesia dê sorte nas mesas dessa cidade das comidas. 'Gastronomias'... Restaurantes repletos para comemorar a cidade de todas as iguarias. Ou, comemorar o aniversário na pizzaria que, como alguns outros lugares em SP, nas canções do Adoniran, em alguns bairros-chaves da cidade, sobreviveram ao tempo. Passaram o século. Não aconteceu o mesmo com a Cantina Américo que fechou suas portas nos idos dos setenta: lá tinha um nhoc honesto com vinho tinto da casa: eu gostava do gosto da noite fria sem horário para voltar para casa. Mas, quem sabe, ainda possamos ser gauches ou, melhor ainda, sermos isentos de unanimidades, como cantam nas músicas os personagens de AB; aí, nem precisaremos do conhaque do Drummond para ver a lua. No tempo que meu preferido era o pequeno restaurante Amérigo foi bem antes de eu conhecer o samba conciso de Adoniran: 'Com a corda mi do meu cavaquinho/fiz uma aliança pra ela/prova de carinho(...)'. Pensava e penso ainda como a Poesia: que as alianças não são rompidas mesmo quando se desvanecem como em outra cantiga que canta mais ou menos assim "que do lado esquerdo do peito ela ainda me quer bem'. Em mim, como em algumas músicas, a poesia não se perdeu. Por isso gosto de ouvir o canto de amor à cidade, aos amigos, para as gentes, das linguagens todas que Adoniran Barbosa compôs em sua longa vida. Um samba diferente, que tem , entre outros características, o honesto, o maroto, o cotidiano de muita gente dessa cidade.
Você já ouviu o samba de AB:'O enxadão da hora bateu onze horas/vamo se embora João/Vamo se embora João/O que que você truxe na marmita Dito? Truxe ovo frito/E, você, beleza? O que que você truxe? Truxe?/Arroz com feijão e um torresmo à milanesa(...) Vamu almoça/sentados na calçada/conversar sobre isso e aquilo/coisas que a gente não entende nada...'
Você já ouviu o samba que tem um verso que canta que "minha mudança cabe no meu bolso de trás"? É alguém, um favelado, conformado, com as ordens do dotô".
É um pouco de São Paulo e muita de nossa gente.