O choro é o nosso assunto inicial, afinal, ele é o primeiro gênero musical urbano, que surgiu em meados do século XIX. Alguns pesquisadores colocam como marco o ano de 1845, quando a polca chegou aos salões do país. Esta é uma dança européia, que nasceu da Boêmia, mas logo se espalhou por todo o continente europeu. A sua principal característica é o seu ritmo sincopado (saltitante) - elemento que o choro se apropriou.
Mas não foi só a polca que originou o choro brasileiro. Um gênero africano também está presente nas influências do nosso chorinho, chamado lundu, que veio junto com os escravos africanos. A sua chegada em terras brasileiras foi antes de 1780, pois neste ano houve uma denúncia ao Tribunal de Inquisição em Lisboa em relação ao lundu no Brasil. Os denunciadores relataram que a dança era contra os preceitos religiosos da época. Só depois de esclarecido que esta dança nada tinha de religiosa, é que foi liberada novamente.
Podemos dizer resumidamente que os pais do choro são a polca e o lundu. O cruzamento dos dois aconteceu nas ruas do Rio de Janeiro, quando os músicos das orquestras se encontravam com ex-escravos para tocar músicas dos salões com um "jeitinho brasileiro".
Antes de virar um estilo de música, o choro era uma maneira de tocar as músicas européias. Tanto é que só ganhou um nome quando foram introduzidos os instrumentos melódicos que, deram um aspecto melancólico ao estilo.
Ainda no século XIX, surgiram grandes nomes do gênero, como Chiquinha Gonzaga, Callado, Saturnino, Patápio Silva, Viriato Figueira da Silva, Henrique Alves de Mesquita, Ernesto Nazareth, Candinho do Trombone, Quincas Laranjeiras, Cipriano e muitos outros grandes nomes do choro.
Joaquim Antônio da Silva Callado Jr.
O compositor e flautista Joaquim Antônio da Silva Callado Jr. foi o criador do primeiro grupo de choro. Callado, como era conhecido, nasceu dia 11 de julho de 1848 no Rio de Janeiro.
Callado começou a ter aulas com seu pai, que era mestre da Banda Sociedade União de Artista, mas logo iniciou seus estudos em composição e regência com Henrique Alves de Mesquita. Em 1867, Callado lançou seu primeiro sucesso: uma quadrilha chamada "Carnaval de 1867". No mesmo dia do lançamento, 19 de junho, seu pai faleceu de endocardite aos 52 anos.
No dia 13 de janeiro de 1869, a sua primeira polca foi publicada, chamada "Querida por todos", dedicada à Chiquinha Gonzaga. Em 1873, Callado compôs "Lundu Característico", que foi o primeiro lundu apresentado num concerto. Este fez tanto sucesso que ele foi nomeado para a cadeira de flauta do Império no Conservatório de Música. Em 1875, foram publicadas as polcas "Como é bom" e "Cruzes, minha prima!".
Neste mesmo período, Callado criou o primeiro grupo de choro. Inicialmente composto por dois violões, uma flauta e um cavaquinho. O grupo começou adotando a polca-de-serenata, que trazia passagens modulantes em ritmo acelerado. No começo, o choro possuía improvisações, em que os violões criavam o ambiente para a flauta solar e o cavaquinho fazia um papel intermediário entre eles.
Callado foi parceiro de Viriato Figueira da Silva, Ismael Correia, Lequinho e outros chorões. Era amigo do compositor de modinhas Chiquinho Albuquerque e do flautista belga Matheus André Reichert, que D. Pedro II contratou para animar os Saraus do Paço em 1859.
Em 1879, Callado recebeu a mais alta condecoração do Império: A Ordem da Rosa. No dia 20 de março de 1880, ele faleceu de meningo-encefalite perniciosa.
Depois de onze dias, foi colocada à venda sua última composição, a polca "A Flor Amorosa". No dia 17 de dezembro de 1883, alguns músicos organizaram um festival e com a renda construíram um único mausoléu no cemitério de São Francisco Xavier para unir os restos mortais de Callado e Viriato Figueira da Silva, que faleceu em 1883. A transferência dos restos foi realizada no dia 27 de julho de 1885.