Deito na cama flutuante na qual meu corpo repousa sem encostar em nada. Com o controle remoto, ligo a tela de plasma e escolho, no menu, qual livro quero ler: ficção, não ficção, português ou qualquer outra língua, sonorizado ou não.
O infravermelho adapta minha visão às letras e mede os sons mais adequados à audição.
Ao lado da cama, a ceia da meia-noite: alimento desidratado, que se encarregará de me deixar saciada, sem preocupações com o nível de colesterol, gordura e açúcares, tudo dosado ao primeiro contato com minha saliva.
Leio até o sono chegar: desde os gregos até Épsilon, o comput-autor mais considerado nessa galáxia, tudo num tempo incomensurável e que permite memorização integral.
De quando em quando dou um delete em alguns milhares de informações superficiais, porque por mais megas que eu tenha, meu cérebro às vezes fica um pouco lento.
Agora que já li o suficiente, mudo o programa do controle e chamo o robô que meus filhos me deram no aniversário. Não é o pai de nenhum deles e preciso verificar se funciona como desejo. Faço com que se deite ao meu lado, aperto um comando programando para que façamos amor três vezes durante a noite, que eu atinja orgasmos múltiplos e que nasça um estereótipo no dia seguinte. Se não passarem no teste de qualidade, tanto o robô quanto e estereótipo serão destruídos. Caso contrário, o estereótipo será levado ao laboratório para que lhe sejam inseminadas as características humanas. Só então decidiremos se devemos clonar ou não, tudo dependendo da qualidade do produto final.
O robô ficará à minha disposição, já que é presente de meus filhos. Quase todos os anos me dão a mesma coisa. Não têm muita imaginação, as crianças. Ando até pensando em reprogramá-los, seja como pessoas, seja como animais de estimação. Sinto falta de cachorros a minha volta. E de papagaios também. Com macacos a experiência não foi muito boa, e por isso mandei erradicá-los. Não há mais razão alguma para que existam. Eliminei também os gatos e alguns outros espécimes da fauna. Só preservei o homem. Aliás, não me lembro se esse pertence à fauna ou à flora. Mas gosto mais de homens do que de macacos, que têm cheiro acentuado, além da horrível mania de fazer certas coisas em locais públicos. Já os homens são bem mais adestráveis. Tenho um em casa faz tempo. Está ficando velho, os pelos embranquecendo, no entanto não me decido a dispor dele. Por uma razão qualquer, ele me causa uma sensação diferente, uma coisa que nenhum dos meus robôs conseguiu despertar. Às vezes me pego distraída a olhá-lo e meu coração de titânio como que se aquece. Não sei se devo mudar o material: talvez ferro; ou me reprogramar também. Mas quem sabe não era isso o que sentiam os antigos e que leio no que restou de livros considerados perniciosos, um negócio em torno do qual tinha gente que até se matava. Se não me engano, chamava-se amor.