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Poesia & Companhia

Cinema: Como tudo começou
Data: 15/04/2002

Por: Patricía Belotti

Ir ao cinema hoje é algo que pode ser considerado normal. Todo mundo vai ao cinema, ou pelo menos já foi alguma vez na vida, e não há nenhum tipo de ritual envolvido, talvez no máximo comprar pipoca e um pacote de balinhas de goma. Mas não foi sempre assim, muito pelo contrário. Para chegar ao que o cinema é hoje, muitas pessoas percorreram um caminho bem acidentado, deslumbrando-se com cada nova tecnologia alcançada, começando pela simples captação de movimentos em uma câmera.

A obsessão do homem pela projeção de imagens vem de muito longe. Não há como citar uma data precisa, mas por volta do ano 5000 antes de Cristo já havia registros das chamadas "sombras chinesas", que nada mais eram do que aquela brincadeira de luz e sombra que as crianças adoram fazer com as mãos. Mas era algo tão fascinante, que artistas rodavam a Ásia fazendo apresentações desse tipo. Nós ocidentais demoramos um pouquinho para pegar essa idéia e transformá-la em tecnologia, mas era uma vontade tão grande que chegou a mobilizar vários países, todos com o propósito de captar imagens e projetá-las de alguma forma.

É exatamente por isso que não podemos creditar a descoberta do cinema a uma pessoa ou país em especial. Foi um processo longo e globalizado. Por exemplo, o primeiro aparelho criado para este fim era chamado de "lanterna mágica" e foi desenvolvido pelo alemão Atharasius Kircher no século XVII. O grande invento era uma simples caixa com iluminação interna que conseguia ampliar uma imagem e projeta-la em uma superfície lisa.
Mas o que mudou realmente o rumo dessas pesquisas foi uma descoberta do século XIX, feita pelos franceses Louis-Jacques Daguerre e Joseph -Nicéphore Niépce: a fotografia. Imagine a maravilha que foi saber que era possível preservar uma imagem em uma folha de papel! A partir daí, ninguém mais segurou os inventores e fotógrafos que espalhados pelo mundo tentavam de qualquer forma dar movimento a essas figuras estáticas. Foram criados aparelhos com os nomes mais estranhos (zootrópio, cinetoscópio, fantascópio, praxinoscópio,...) vindos dos mais variados países como Inglaterra, França, Áustria, Bélgica e Estados Unidos.

Até que (apertando o botão do fast forward na nossa linha do tempo) surgiram os irmãos Lumiére. Louis e August eram filhos de um fotógrafo e dono de uma indústria de filmes e papéis fotográficos. Freqüentaram uma escola técnica e passaram a fazer experiências na fábrica do pai. Criaram o cinematógrafo, um aparelho que é como se fosse o ancestral das nossas filmadoras, movido a manivela, que substituía a ação de várias máquinas fotográficas agindo ao mesmo tempo, registrando assim o movimento. Depois ela projetava essas imagens para o público. E não é que eles conseguiram mesmo? Passaram a filmar cenas do cotidiano e no dia 28 de dezembro de 1895 eles realizaram a primeira sessão de cinema do mundo. Eram filmecos de dois eletrizantes minutos que tinham títulos como "A saída dos operários das usinas Lumiére", "A chegada do trem na estação", "O almoço do bebê" ou "O mar". Enfim, era como ter o oceano dentro de uma salinha fechada.
Não tardou para que essa nova forma de arte virasse entretenimento. Eram como espetáculos teatrais que podiam ser vistos várias e várias vezes seguidas. O pioneiro do cinema como ele é hoje (aliás, muitos o consideram ainda mais importante do que os irmãos Lumiére para a história da sétima arte) foi um francês chamado Georges Mélièr. Seus filmes usavam cenários, maquetes e até efeitos especiais. Ele chamava acrobatas de circo e bailarinas de boate para compor o elenco e criava histórias diferentes. São dele "O encouraçado Mane" (1898), "A caverna maldita" (1898), "O chapeuzinho vermeho" (1901), "A gata borralheira" (1899), e o mais famoso "Viagem à Lua" (1902), baseado no romance de Julio Verne.

Mas essa aulinha de história, na verdade, foi para mostrar que o cinema surgiu como uma possibilidade, como uma diversão a mais, até que foi conquistando todo o mundo. O filme era, por exemplo, a única possibilidade de diversão dos imigrantes, já que eles não entendiam a língua do país, portanto, não podiam ir ao teatro, por exemplo. E o cinema era mudo (e quem precisava de palavras para descrever aquelas imagens?). Além de tudo, o preço do ingresso era muito mais barato, já que o filme podia ser projetado em qualquer lugar. Surgiram os estúdios, os executivos, os atores e atrizes e estes não ficaram satisfeitos enquanto não fizeram do cinema uma atração para todas as classes sociais. E foi exatamente o que eles conseguiram fazer: uma indústria de sonhos, entretenimento e muitas possibilidades, que já tem mais de um século de vida e agora está entrando em sua fase áurea, onde qualquer pessoa tem acesso à super produções, a filmes independentes, filmes de arte, que vêm dos mais variados países, unindo nações e classes sociais numa sala escura e fechada.

Sugestões de filmes mudos para ilustrar esse momento mágico do cinema: qualquer um de Charles Chaplin, como "O Garoto" (1922), "Em Busca do Ouro" (1925) e "O Circo" (1928).

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