Há uma semana Marta parou de tomar os remédios. De vez em quando faz isso. Os remédios deixam-na excitada, inquieta, com vontade de mudar a vida, além de engordarem em demasia. Ao parar, o bem-estar foi imediato. Ficou muito mais tranqüila, pensativa, coração imerso numa calma tibetana. Desfrute impensável no tempo dos remédios, quando era obrigada a cuidar de tudo (inclusive da própria vida), arcar com as responsabilidades e ir semanalmente ao analista. Sem os remédios, que se dane a vida, o analista, as contas, o rol de possibilidades para sair de um beco que não tem saída.
A tarde agora parecia as tardes da infância, sem nenhum compromisso a não ser brincar no quintal, comer jabuticaba e ouvir histórias da moura torta. É verdade que as tardes de abril costumam ser muito bonitas, mas esta estava especialíssima: capaz de fazê-la esquecer a correria dos tempos de outrora, a falta de ar, a falta do que reclamar.
Quando tomava remédio julgava-se igual a todo mundo. Acreditava mesmo que podia mudar o rumo das coisas. Sentia-se uma mulher madura, autônoma, independente. Podia até retomar o caminho que deixara para trás, quando decidiu casar-se com Luís para agradar a mãe. Mas era tudo faz-de-conta. A verdade verdadeira só aparecia quando ela parava de tomar remédio e via o ridículo dessa história de ser igual a todo mundo.
- Paro agora de tomar os remédios, ponho os pés sobre a mesinha e ocupo meu tempo de forma mais divertida. Não fazendo absolutamente nada, por exemplo.
Nos últimos tempos, Marta engordara feito uma porca. Os remédios faziam-na comer tudo que aparecesse pela frente. Sem eles, sentia-se satisfeita com quase nada. Os pensamentos e fantasias lhe enchiam a boca, o estômago e o coração de vento e coisa nenhuma. Quem sabe volto ao meu corpo de menina, quando o prazer ainda reluzia no horizonte das possibilidades.
Livre dos afazeres que nunca lhe deixaram tempo para coisa alguma, Marta andava horas a pé pelas redondezas. As ruas do bairro onde morava eram lindas e arborizadas. Nesta época do ano, as calçadas viviam repletas de folhas de todas as cores e formatos. Parou para descansar embaixo de uma quaresmeira e logo seu colo ficou cheio de pétalas roxas. Fechou os olhos e se viu morando num daqueles palacetes, cercada por empregados, marido bonitão, automóvel último tipo. Filhos? Seis ao todo: três homens e três mulheres.
O mais velho trabalha com o pai na fábrica de parafusos. A segunda é prática e decidida, está cursando o último ano de engenharia. O terceiro é um rapaz sensível e sonhador como a mãe, quer fazer filosofia. Os três caçulas já já alçam vôo mas, por enquanto, vivem na barra da saia, são a alegria da casa. Todos com saúde, estudiosos e sem vícios, graças a Deus. Quando saem, dizem aonde vão e telefonam se vão atrasar. Os mais velhos só dirigem na velocidade permitida; os mais novos sabem que não podem aceitar nada de estranhos na rua. Em casa, são alegres, respeitadores e ouvem boa música.
Casados há vinte e cinco anos, Marta e Luís só brigaram uma única vez durante este tempo todo e o motivo da briga hoje foge-lhe totalmente da memória.
Apesar da família de causar inveja, o tédio toma conta da alma e do coração de Marta. Isso faz com que, de vez em quando, ela deixe escorrer tudo pelo ralo. Manda o mundo à merda e enxota os passarinhos que alimenta diariamente na sala de jantar. Quando joga tudo pro alto, nada mais a sufoca, nada aborrece - nem o marido rico e bonitão, nem a casa, nem os empregados, nem a saudável ninhada.
Antes que anoiteça, Marta volta para casa. Sorri para tudo e para todos e se acha linda no espelho dos automóveis. Se é dia de chuva, se deixa molhar. Se se acha gorda, afasta logo o pensamento: não tem importância, amanhã emagreço. O céu completamente negro não a assusta mais. Que venha o temporal, ela diz desafiando céus e terra a desabarem sobre sua cabeça.
Quando pára com os remédios, Marta muda-se para o quarto dos fundos de uma pensão barata, onde só cabe ela e mais ninguém. Nem o medo cabe mais. Calça sandália de borracha e se alimenta com uma cesta básica que alguma alma caridosa lhe deixa na soleira da porta.
Ao chegar em casa, cumprimenta cada um dos empregados e diante de tantas perguntas (onde a senhora esteve? Quer um sanduíche? Aceita um suco de laranja?) começa a rir desbragadamente. Vocês parecem soldados de um exército de brinquedo, ela diz às gargalhadas, soldados do exército da laranjada.
Rindo da própria piada, vai andando pelos corredores num passo leve de quem não sabe onde pisa. Em frente à televisão põe os pés sobre a mesinha e come todo o algodão que sai feito um catarro pelo tecido esgarçado do sofá. Ao vê-la, Luís tem certeza que ela parou com os remédios.21.07.98/22.11.99