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Poesia & Companhia

Leitura: Caro Daniel
Data: 19/01/2001

Por: Ivana de Arruda Leite

O hotel onde estamos hospedados é uma graça, todo branquinho com um maravilhoso jardim ao redor. Impossível imaginar você neste lugar. No quarto muito arrumado, cada coisa tem seu lugar e cada lugar tem sua função, muito diferente da bagunça que era o nosso, com roupa pra todo lado, copos espalhados pelo chão e baratas comendo os restos de sanduíches que você deixava no criado-mudo. Em vez dos três maços de cigarros que eu fumava, agora só inalo vapor de eucalipto na sauna do hotel. Nunca mais tive bronquite. Aliás, não é só a bronquite que está melhor: a cabeça, o humor e a vida inteira. Tenho andado muito animada nos últimos tempos. 

Caminho pela manhã, tomo vitaminas, como verduras e substituí o café por suco de laranja. Azia nunca mais. Estou até pensando em entrar na natação por esses dias. Quem diria, hein? Toda vez que Alceu me beija a boca, eu me lembro do seu bafo insuportável de cerveja e de como era difícil colocá-lo na cama quando você bebia até cair. Alceu é tão diferente! Acorda de bem com a vida, só ouve música clássica e faz poesias maravilhosas. Está sempre querendo saber se eu estou bem, se preciso de alguma coisa. Você não imagina a delícia que é viver com alguém assim. Na cama, sinto-me uma rainha. Se eu não estou com vontade, Alceu não fica insistindo como você fazia, nem vem me bolinando. Pra você, pouco importava se eu estava a fim ou não. 

Além disso, ele não me beija do jeito que você beijava, querendo tirar pedaço, e nem me chupa os seios com aquela força que você chupava, deixando os dentes todos cravados na minha pele, e nem me deixa aquelas manchas roxas na perna como você deixava e nem eu grito tanto quando gozo, como gritava com você. Não pense que andamos nus pelo quarto ou trepamos no box do chuveiro. Tudo com ele é muito romântico. Logo que o conheci, vi que ali estava um homem capaz de fazer uma mulher feliz. Fazíamos longos passeios, íamos ao cinema, conversávamos sobre a vida. Na época, eu chorava muito por sua causa, Alceu cercou-me de gentilezas. Bem sei que eu devia ter falado com você antes de tomar a decisão, mas, sinceramente, nunca achei que isso fizesse alguma diferença. Por isso não entendi o porquê da sua cara de pânico ao me ver arrumando as malas. Você não olhou para os meus olhos nem uma vez. Saí correndo e desci a escada em disparada, mas vi muito bem que você entrou no banheiro chorando. Pensa que foi fácil pra mim? Pensa que eu não ouvi quando você começou a quebrar tudo lá dentro? Ouvi sim senhor. Pensa que isso me comoveu? Nunquinha. Aliás, só estou te escrevendo pra dizer que eu agora sou uma mulher feliz de verdade. Adeus e até nunca mais. E agora é nunca mais mesmo.

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