Arte, Câmara, Ação
Seus pais vivenciaram os horrores das perseguições nazista e stalinista à época da 2a. Guerra Mundial. Deles, herdou amor pela vida e a eterna busca do lado formidável da existência. Para Marguerita Fahrer, somos todos parte de um todo Daí a necessidade do pensamento comunitário. Para a pintora e escultora, sua função como artista é a de iluminar o caminho, servir de guia e inspirar. Procura fazê-lo sempre com bom humor, como demonstra o seu trabalho.
Marguerita, nasceu na Austrália, mas foi educada em São Paulo e Rio. De Sydney a Nova Iorque, foram inúmeras exposições. Seu trabalho foi apreciado e premiado por norte-americanos, canadenses e italianos, entre outros. Na França, chegou a ser impresso na porcelana de Limoges.
A artista mora nos EUA há mais de 20 anos, mas seu traço é muito familiar aos brasileiros. Suas ilustrações e animações, respectivamente, para o Suplemento Literário do jornal "O Estado de São Paulo" e para a novela "O Rebu", marcaram época.
O tempo pode ter passado, mas Marguerita Fahrer garante que as saudades do Brasil permanecem.
1. São Paulo, Nova Iorque, Sydney e Rio. Qual a cronologia dessas cidades em sua vida?
Nasci em Sydney, Austrália, 25 de fevereiro de 1950. Aliás, tenho uma estória curiosa. Meus pais são sobreviventes do Holocausto. Minha mãe, de Auschwitz, e meu pai, de um gulag na Sibéria. No último dia da Guerra, minha mãe foi tirada de Auschwitz numa troca de prisioneiros judeus por soldados alemães nas mãos dos Aliados. Ela foi levada para Gettyborg, na Suécia e de lá para o Karolinska Institute. Os médicos de lá constataram sua subnutrição (estava com 36 kg) e que, por ter sido escrava dos alemães (1942-1945), fazendo balas de pólvora para a Nobel A.G., seu organismo tinha sido seriamente atingido e jamais poderia engravidar.
Depois, ela foi trabalhar na Unesco, em Paris, ajudando a migração de judeus para a Austrália. Meu pai, por sua vez, já tinha obtido uma "Carte de Séjour de Resident". Se encontraram, na capital da França, e partiram para a Tasmânia.
Num certo momento, minha mãe não se sentia muito bem e foi à médica. O diagnóstico foi tumor. A doutora indicou uma radiografia para melhor analisá-lo. Meu pai, alarmado, não permitiu e levou minha mãe de avião para Sydney.
Lá o ginecologista informou que o "tumor" que minha mãe tinha duraria nove meses.
Em 1954, meus pais se mudaram para o Rio de Janeiro e, depois, para São Paulo, onde cresci, estudei e trabalhei.
2.Como se deu o seu namoro com as artes plásticas e a passagem da cartunista para a pintora?
Não é um namoro. É uma paixão. Desde os meus três anos de idade já exibia uma forte tendência para criar e pintar. Faz parte do meu sangue,meu DNA,do meu ser. Sem poder criar, me sinto como um pássaro de asas amarradas e de bico trancado. O desenho e a escultura são o meu forte. O senso de humor é atávico. Através do humor, podemos comunicar a verdade, expor o mundo a sensibilidade da consciência humana e atrair a atenção a problemas que muitas vezes são quiméricos e que parecem sem solução. Só a morte é final. Mesmo no Judaismo, existe uma forte dose de humor na sabedoria rabínica, que tanto me inspira.
3. Há quanto tempo saiu do Brasil, como se deu essa mudança e de que forma morar nos EUA influencia a sua pintura?
Sai do Brasil em 1976, por desespero.Estava sofrendo uma perseguição pessoal e profissional devastadora. Infelizmente, esta perseguição continuou no Exterior, pelos mesmos personagens. Era sozinha e dependia de minha carreira. Fui mandada embora do Jornal da Tarde, em 1975, sem explicação, uma semana antes da minha primeira individual na Galeria Múltipla. Isso aconteceu depois do sucesso de meus desenhos para a abertura da novela O REBU, de Bráulio Pedroso,na TV Globo. Tinha também uma Página de Humor na Revista Manchete. Ao ser despedida, comecei a fazer contatos no Exterior. Sem receber respostas, decidi fazer uma viagem para Zurich, na Suiça. Lá, o editor da Graphis, viu o meu portfólio e me convidou a um encontro com o Editor Walter Herdeg. Este, por sua vez, fez contatos para mim em Paris (Georges Dargaud) e em NY (Louis Silverstein, Editor do NY Times), que, infelizmente, não deram certo.
Depois de ficar três anos na Austrália, onde expus na Bonython Gallery e fui procurada pelo The Australian para criar uma página de humor, voltei ao Brasil.
Tinha 23 anos, estava com muitas saudades do meu país. Fui contratada pelo Jornal da Tarde e pela Lynxfilm. Tinha meus planos. Queria ter uma casa, montar um estúdio, encontrar um homem maravilhoso e... o país se encontrava numa tensão horrível, ditadura militar, censura... A mulher ainda não era respeitada como profissional e eu, devido ao sucesso, senti uma inveja brutal contra mim. Minha página de humor na Revista Mais foi censurada. Também fui mandada embora da agência de publicidade Alcântara Machado, onde atuava como Diretora de Arte. Angustiada e temendo pela minha vida e pela minha mãe, resolvi mudar para Nova Iorque.
Sobre a influência, tenho, aqui, acesso à informação . Leio muito, o que me inspira. Mesmo vivendo nos EUA desde 1976, considero a minha arte muito brasileira. As cores, a vibração e a energia brasiliensis. Eu e o Brasil temos muito em comum, a mesma alma, a meu ver.
"O nazismo foi um dos raros momentos da história da nossa civilização em que uma porta se abriu sobre outra coisa, de forma ruidosa e visível. É bastante estranho que os homens finjam nada ter visto nem ouvido, além dos espetáculos e ruídos vulgares da desordem guerreira e política."
'O despertar dos mágicos' - Louis Pauwels e Jacques Bergier, Bertrand Brasil
4- De que forma a cultura judaica influencia o seu trabalho?
Minha mãe, número A-26.427 (Auschwitz), meu pai, testemunhas e vítimas da maior calamidade humana, e toda a minha família dos dois lados, executados nos fornos crematórios dos alemães. Eles me deixaram a herança de amar a vida, de procurar ver a alegria e o lado formidável de nossa existência. "Olhe no queijo,e não nos buracos do queijo" como dizia a minha mãe, sempre pronta a fazer uma brincadeira. Tenho fé e perseverança, apesar dos obstáculos. Um desejo de viver; de sentir a vida, continuar o trabalho do Criador, em ser sua parceira na construção; de procurar sempre participar em todas as sensações; de não sentir medo. Esta luz azul que sempre ilumina , mesmo na escuridão mais cavernosa. A curiosidade e os símbolos. O eterno humor. Quando um Judeu ri, está chorando por dentro.
5-Saudades do Brasil? Qual a imagem que conserva do País?
Tenho muitas. Não sei com explicar. Todos estes anos (desde 76) vivo como o ramo de uma árvore suspenso no ar. Fecho meus olhos e sonho, que estou andando no Brasil, imaginando lugares que visitei, onde vivi, as pessoas com quem cresci e convivi. Vejo o Brasil que existe em meu coração, desde menina. O Rio de Janeiro e São Paulo, onde fui para a escola, o ritmo pulsante, a violência que já existia, só que mais camuflada. Constato que, atualmente, ela prepondera de uma forma cancerosa. Desde jovem fui sensível à condição humana e crítica da injustiça social que não tem nem razão de ser. Tenho uma visão de como o país poderia ser, onde o respeito pela vida tem de ser implementado e inculcado em todos, tantos pobres quantos ricos. Estes últimos, principalmente, têm o dever moral de parar e se analisar para compreender que reside em suas mãos, corpos e almas uma responsabilidade de mudar a situação que criaram pela sua indiferença ao próximo. Não tem nada a ver com alguma ideologia política ou religiosa. A consciência é uma qualidade individual. Cada um de nos nesta terra, neste Universo, é parte de um todo. Todos nós precisamos cuidar do ar, da água, do mar, da Terra e pensar em sentido comunitário.
Partilho a dor profunda pela situação em que encontrei o Brasil. Também fui vítima de um assalto e roubo a faca, quando andávamos, eu e minha família, às cinco da tarde, apreciando o céu cor de rosa na praia de Copacabana, em frente ao hotel onde estávamos hospedados. É preciso reagir de uma forma construtiva. Estamos todos de passagem. Nada levamos daqui e, por isso, não adianta acumular. O Brasil precisa ser independente ao invés de ficar copiando os males de outros povos. Temos riqueza e potencial para viver em harmonia e produtividade. A paz existe dentro de nos. É só ouvir o som.
6-Teve oportunidade de ver a ultima Bienal(SP) ou a Mostra dos 500 anos de Brasil?
Não tive chance, nesta minha primeira volta ao Brasil, depois de 25 anos, de ver a Bienal ou a Mostra. Mas gostaria de participar da próxima Bienal.
7-Sua formação acadêmica.
Através de meus pais. Ambos liam muito. E me influenciaram muito.
Sempre desenhei. Cresci fazendo esculturas usando diversos materiais. O que hoje e chamado de multimídia. Meu pai era engenheiro têxtil e químico e sempre me trazia pedaços de arame, tintas acrílicas. Minha mãe sempre me comprando livros de arte e me abrindo o horizonte. Estudei História da Arte com Pedro Manuel Gismondi. E, desde menina, meus desenhos eram publicados na Imprensa (N. Redação: seu primeiro desenho foi publicado em 1960). O diagramador do Suplemento Literário do Estadão me apelidou de "menininha" com muito afeto. Participei de Exposições e Salões de Arte. Estudei Life Drawing em Sydney, na East Sydney Technical College. Lá, também trabalhei em Animação, aprendendo toda a técnica. Leio muito sobre Arquitetura, Paisagismo, Jardins, Desenho Interior, Moda e Teatro. Criei o meu Puppet Theater em 1997, construindo um pequeno teatro dentro do meu loft. A peca foi adaptada de um projeto que tenho e espero publicar em forma de livro "O Fantáastico Stefan e seus Caracenouras". També estudei ballet, música e piano. Tenho em meu coração o amor de minha mãe que era tão grande. Ela tinha recebido em 1957, uma pequena soma de dinheiro de indenização. Imediatamente comprou um piano para mim. Forçada a trabalhar para sustentar a casa, aprendi no batente. Cláudio Abramo, Editor Chefe da Folha de S.Paulo, me ensinou a ser diagramadora . A vida nos dá lições todos os dias. Para mim, o essencial é o caráter humano. Depois disso, o talento natural e muita disciplina.
8- Pintores e colegas que admira.
Goya, Bosch, Bacon, Max Ernst, Velasquez, Picasso, Dorothea Tanning, Wesley Duke Lee, Claudio Tozzi, Cy Twombly, Anselm Kiefer, Sigmar Polke, Klee, Oldenburg, Kandinsky e outros.
9-Alguma filosofia ou sonho da vida?
Viver é um eterno caminhar, caminhe, caminhe, caminhe. como me aconselhou Dona Soledade, minha diretora desde o Jardim da Infância, no Colégio Rio Branco.
10- A escritora Anaïs Nin confessou em seus diários que não podia viver sem doses regulares de beleza. Quando não encontrava nada para admirar, procurava o belo fazendo literatura, criando o seu diário. O artista é movido pela expectativa do belo e da sensibilidade?
Concordo plenamente. É esta beleza que procuramos existe em momentos preciosos: em ternura, em música, na voz de uma pessoa, no tocar, num beijo, no vôo do pássaro, no reconhecimento de sentimentos mútuos, na natureza, nos mistérios e na vida em si. No silêncio, no pensamento criativo.
11-Qual a função da arte nos dias de hoje?
Creio que, mais do que nunca, agora que voltamos aos DarkAges, é uma função para iluminar o caminho. A Arte verdadeira, por artistas verdadeiros. Porque a arte é intelectual e, por isso, pode servir para guiar e inspirar. Através da música, literatura e artes visuais, a imaginação do artista pode transpor a mente humana e criar uma atmosfera, mudar um pensamento negativo. A Arte sempre foi um meio de comunicação. Por isso, os ditadores, os destruidores da Paz e Harmonia sempre atacam os intelectuais e artistas. Somos seus inimigos mortais. Somos capazes de abrir horizontes e ver além da cortina invisível.
"A totalidade das causas que determinam a totalidade dos efeitos ultrapassa o entendimento humano"
Raymond Aron
12.Qual o papel da família na sua vida?
Como a minha foi destruída por Hitler e Stalin, no século que recentemente passou, e, antes, voltando na história da Europa, voltando aos Romanos, para mim foi sempre um teatro visionário. Sempre imaginando como seriam suas (de seus familiares) vozes. Sentir seus abraços, poder chamá-los em qualquer momento, correr em suas direções. Só conheci meu pai e minha mãe. Tenho só 4 fotografias. Uma de minha avó materna, meus avôs paternos e uma do irmão de meu pai, um arquiteto. De grandes famílias influentes, nada resta, senão uma penumbra, que me passa pelo inconsciente a vida toda perguntando por eles, procurando seus vestígios. Quando encontro fotos do Holocausto, pergunto se nos fornos crematórios de Treblinka, Auschwitz, Dachau,os ossos que vejo não seriam os de minha família.
A família que eu sempre quis criar com meu marido, consegui dando à luz a dois meninos, que espero que continuem em suas vidas os sonhos de seus antepassados de contribuir para o mundo, de serem vozes para a liberdade da alma em função dos Direitos Humanos e da vida em si. Foram estas as palavras que meus pais sempre me repetiam, que eu contribua para a família, que nos todos somos.
13-Como conciliar sua produção artística com a vida pessoal?
A vida de artista é realmente uma vida muito espiritual. Criamos o tempo todo, estamos, realmente, num estado de nirvana na maioria do tempo. Conciliar o momento quando a aura criativa se apodera de nós é o momento mais difícil para combinar com a rotina. Neste momento, fazemos um sacrifício. Ou, então, criamos o que nos passa pela cabeça, corpo e alma ou nos dedicamos ao work in progress, que é observar o desenvolvimento de nossas criações em carne e osso ou fazemos uma definição radical. Isto é, vivermos sozinhos, livres, soltos a nossa vontade, donos de nossos desejos. Podemos optar também por combinar a nossa dedicação no mesmo nível, só que dividido.
É um sofrimento. Somos sempre mal compreendidos, produzimos menos, só que uma vez criando uma família a responsabilidade é uma obrigação moral e intransferível.
14- Algum hobby ou leitura especiais?
Gosto muito de jardins. É meu sonho ter um jardim, plantas, animais e pássaros exóticos. Cultivo minhas orquídeas e leio muito. No momento estou lendo um livro de Moacyr Scliar. Gosto de tapetes e kilim orientais, arte folclórica, cinema e arqueologia.
15-Alguma exibição programada para o Brasil?
No momento, considero a possibilidade de uma mostra de desenhos,colagens e esculturas.
16-Em qual escola de pintura enquadraria o seu trabalho e como se deu a sua evolução artística?
No começo de minha carreira profissional, no Suplemento Literário de "O Estado de S.Paulo", nos Salões de Arte e nas exposições, meus desenhos eram líricos. No dia 29 de Setembro de 1967, quando olhei o meu pai inerte, morto, uma alma tão fabulosa, silenciada, prometi a mim mesma que não seria mais capaz de criar imagens tristes e sem mensagem. Minhas imagens teriam sempre uma dose de humor. Parti do realismo, com tendência ao surrealismo. Talvez, a escola a que pertenço seja a de extrapolar o imaginário. Nunca gostei de
rótulos, apesar de precisarmos deles muitas vezes para não confundir o sal com o açúcar. Parto sempre de um desafio. É o que me guia, tanto no papel, quanto nas esculturas e nos desenhos de humor. A mensagem é como um tiro ao alvo.
17-Vive de sua pintura?
Até antes de meu casamento, em 1985, e também durante, minha arte tem sido o meio que me sustenta financeiramente. De certa forma, trabalho muitas vezes com meu marido. No momento, com meus filhos ficando mais velhos, me sinto mais livre para me ocupar de uma forma mais consistente e me engajar mais intensamente para ser independente financeiramente e contribuir para resolver problemas econômicos. Sempre encontrei um prazer enorme em traduzir minha arte em moeda corrente e ser independente.
18-Como vê o trabalho levado a cabo pelo Ministério da Cultura?
Não tenho a mínima informação ou dados sobre o desempenho