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Entrevista com:  Marguerita Fahrer
Data: 24/01/2001

Por: Domitila Farina

Arte, Câmara, Ação

Seus pais vivenciaram os horrores das perseguições nazista e stalinista à época da 2a. Guerra Mundial. Deles, herdou amor pela vida e a eterna busca do lado formidável da existência.  Para Marguerita Fahrer, somos todos parte de um todo Daí a necessidade do pensamento comunitário. Para a pintora e escultora, sua função como artista é  a de iluminar o caminho, servir de guia e inspirar.   Procura fazê-lo sempre com bom humor, como demonstra o seu trabalho. 

Marguerita, nasceu na Austrália, mas foi educada em São Paulo e Rio. De Sydney a Nova Iorque, foram inúmeras exposições. Seu trabalho foi apreciado  e premiado por norte-americanos, canadenses e italianos, entre outros. Na França,  chegou a ser impresso na porcelana de Limoges. 

A artista mora nos EUA há mais de 20 anos, mas seu traço é muito familiar aos brasileiros. Suas ilustrações e animações, respectivamente,   para o Suplemento Literário do  jornal  "O Estado de São Paulo" e para a novela "O Rebu", marcaram época.

O tempo pode ter passado, mas Marguerita Fahrer garante que as saudades do Brasil permanecem.

1.  São Paulo, Nova Iorque, Sydney e Rio. Qual a cronologia dessas cidades em sua vida?

Nasci em Sydney, Austrália, 25 de fevereiro de 1950. Aliás, tenho uma estória curiosa. Meus pais são sobreviventes do Holocausto. Minha mãe, de Auschwitz, e meu pai, de um gulag na Sibéria. No último dia da Guerra, minha mãe foi tirada de Auschwitz numa  troca de prisioneiros judeus por soldados alemães nas mãos dos Aliados. Ela foi levada para  Gettyborg, na Suécia e de lá para o Karolinska Institute. Os médicos de lá constataram sua subnutrição (estava com 36 kg) e que, por ter sido   escrava dos alemães (1942-1945), fazendo balas de pólvora para a Nobel A.G., seu organismo tinha sido seriamente atingido e jamais poderia engravidar.

Depois, ela foi trabalhar na Unesco, em Paris,  ajudando a migração de judeus para a Austrália. Meu pai, por sua vez, já tinha obtido uma "Carte de Séjour de Resident". Se encontraram, na capital da França,  e partiram para a Tasmânia.

Num certo momento, minha mãe não se sentia muito bem e foi à médica. O diagnóstico foi tumor. A doutora indicou uma radiografia para melhor analisá-lo.  Meu pai,  alarmado, não permitiu e  levou  minha mãe de avião para Sydney.

Lá o ginecologista informou que o "tumor" que minha mãe tinha duraria nove meses.

Em 1954, meus pais se mudaram para o Rio de Janeiro e, depois, para São Paulo, onde cresci, estudei e trabalhei.

2.Como  se deu o seu namoro com as artes plásticas e a passagem da cartunista para a pintora?
Não é um namoro. É uma paixão. Desde os meus três anos de idade já exibia uma forte  tendência para criar e pintar. Faz parte do meu sangue,meu DNA,do meu ser. Sem poder criar, me  sinto  como um pássaro de asas amarradas  e de bico trancado. O desenho e a escultura são o meu forte. O senso de humor  é atávico. Através do humor, podemos comunicar a verdade, expor o mundo a sensibilidade da consciência humana e  atrair a atenção a problemas que  muitas vezes são quiméricos e que parecem  sem solução. Só a morte é final. Mesmo no Judaismo, existe uma forte dose de humor na sabedoria rabínica, que tanto me inspira.

 


continuação
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