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Entrevista Dra. Graça Marques
Data: 15/11/2006

Por: Marcela Melo

WM: A sra. escolheu esta área da psicoterapia por que? A dependência química é uma doença?

Dra Graça: Porque sou filha de um adicto e sempre gostei de desafios grandes. Tratar uma família adicta é algo muito forte e desafiante.

Sim, a toxicodependência é uma doença bioquímica e  psíquica. Estudos indicam que ela  é uma pré-disposição genética e imitada emocionalmente ou afetivamente (a criança assiste um familiar bebendo e se drogando mesmo que seja de uma forma velada e aparentemente "social" e se identifica com o modelo) e escolhe uma droga na adolescência para demonstrar aos familiares que ele "aprendeu " e que com ele será diferente, ele não se dará mal, ele é inteligente e não será um "viciado".

E muitas vezes o jovem nem desenvolve a toxicodependência com uma droga ilícita, mas tem um comportamento de um adicto. É um transgressor, compulsivo, não respeita limites, narcisista e impulsivo...Estes são aqueles jovens que sofrem os acidentes de carro em alta velocidade. São aqueles que gastam o que a família nem tem e exige de todos uma atenção que excede ao possível.

E ainda há o caso de pré-disposto geneticamente e que nunca desenvolverá a doença porque teve uma educação adequada e com a devida introdução da moral, ética e bons costumes, somados à prática de uma vida religiosa e espiritual estruturada.

 

WM:  E como a sra. ver o homem moderno que usa droga para trabalhar e nem percebe que está doente? A mulher também está sujeita a esta situação e como ajudá-los?

Dra Graça: Bem, o homem moderno é um homem que rompeu os limites da sua própria vida e se flagela estudando e trabalhando compulsivamente para sobreviver neste mundo business de alta competitividade e desumano. Ele se droga de várias maneiras, a mais comum é entupindo-se de alimentos lixo e açúcares com muito refrigerantes e quando tem tempo as comidinhas ligths e diets para se auto-enganar que está cuidando de si. Porém este homem estressado, viciado em adrenalina, parte para as drogas do tipo cocaína e maconha para conter uma depressão difusa e não reconhecida como tal que o ataca todo dia cedo e à noite. Uma vez ele usa para trabalhar até mais tarde, outra para aguentar ir para a academia e depois para continuar a noite na balada outra para transar com a garota e vai, vai, vai, até que quando vê já está dependente e não consegue mais sair sozinho. Este homem agora é um dependente químico e fracassado porque cada dia ele necessita de mais e mais cocaína e tem medo de compartilhar com alguém.

Quase sempre este homem vai  procurar ajuda quando encontra  uma namorada que entende do sofrimento e da uma forçada de barra para ele se tratar...Ele tenta vários profissionais e sofre até achar o que sabe mesmo que doença é esta. Quase todo psicoterapeuta se acha preparado para tratar de um adicto, mas não é verdade. O doente tem que encontrar um especialista e não quer dizer que seja um psiquiatra, este sabe bem medicar e nem sempre sabe diagnosticar corretamente e saberá interpretar a história do adicto. Convém dizer também que muitos psiquiatras já se especializaram em toxicodependência ou dependência química.

Claro que a mulher sofre as mesmas pressões profissionais e têm os mesmos problemas de ordem emocional e familiar. Só que ela vai se drogar mais reservadamente e segue uma linha mais leve (muitas vezes), usando maconha e Álcool de uma forma abusiva.

Também ela se toca antes que o homem e procura ajuda mais que os homens 30% a mais maioria das vezes.


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