O ambiente esportivo, de maneira geral, ainda é bem machista em seus vários níveis. Há mais postos de trabalho para homens do que mulheres em cargos administrativos (conhecem alguma mulher na direção de um clube de futebol, por exemplo?). Mais equipes masculinas inscritas nas competições, mais técnicos, comentaristas e repórteres especializados.
A Superliga de Vôlei conta com 13 equipes frente às 11 femininas. O Nacional de Basquete conta com 14 equipes masculinas e 8 femininas. E o que dizer do futebol, que praticamente ignora a versão feminina, apesar de termos atletas excelentes?
Mesmo as modalidades cujas equipes femininas são mais representativas internacionalmente, são menos "valorizadas" no mercado em relação às equipes masculinas. Tradução: os salários são mais baixos e os investimentos das empresas, menores. O vôlei e o basquete feminino são dois exemplos de modalidades que têm obtido, nos últimos anos, resultados mais expressivos do que as equipes masculinas das mesmas modalidades. Nas últimas Olimpíadas, o vôlei feminino conquistou a medalha de bronze, enquanto o masculino ficou em 5ºlugar.
O basquete de Paula e Hortência conquistou a medalha de prata, enquanto o de Oscar ficou bem longe do podium.
Quando chegaram em Atlanta'96, metade das atletas da seleção de vôlei estavam desempregadas, prejudicadas pelo longo período de concentração a que eram submetidas, o que gerou descontentamento por parte de clubes e patrocinadores. A jogadora Janeth, logo após receber a medalha de prata em Atlanta, declarou que esperava que, com o resultado obtido, conseguisse um patrocinador para sua equipe.
E tenho ouvido comentários semelhantes em todos os esportes, dos mais aos menos profissionalizados.
As dificuldades para a mulher suceder no esporte são enormes, pois além dos desafios comuns (adversários, treinamentos intensos, pressão, viagens constantes), muitas vezes os próprios amigos e familiares "desdenham" da profissão de atleta. Eu mesma, quando adolescente, era um pouco reticente para dizer: "sou atleta". As pessoas diziam: "Como assim? Você não estuda, não trabalha? Não namora, não quer casar, etc, etc?" Ou seja: por mais alto que atinjamos como atletas, a cobrança da sociedade ainda é grande em relação à vida pessoal da atleta/mulher.
Espera-se que uma atleta famosa seja, além de ótima no que faz, boa mãe, esposa e atuante na sociedade. Ah! E ainda que seja bonita e tenha um corpo perfeito, para que assim os patrocinadores se aproximem. Será que os resultados ficam em segundo plano? Não basta à Sissy ser artilheira de futebol (comparada ao Ronaldinho em sua época de auge), mas cobram-na um namorado, uma postura mais feminina.
Os homens também respondem a perguntas pessoais, mas a importância dada a elas é bem menor se comparado à sua atuação "em campo".
As mulheres/atletas são cobradas como mães, esposas, filhas,etc e sofrem de um complexo de culpa grande em relação a isso.
Quem tem uma amiga, colega, filha, irmã ou mesmo mãe que seja atleta sabe muito bem do que estou falando. Apesar dos louros e das oportunidades que o esporte oferece, o preço que se paga para "chegar lá" é muito grande também.
Cabe a nós, mulheres, nos unirmos por direitos iguais e melhores condições. Gostaria de compartilhar minhas próprias experiências e também trocar informações com as internautas de Wmulher. Afinal, o espaço é nosso e podemos nos fortalecer mutuamente.
Um grande abraço,
Lyanne Kosaka
Colaboradora: Lyanne Kosaka - Participou de 2 Olimpíadas (Barcelona'92 e Atlanta'96) e tem 2 medalhas de bronze em Jogos Panamericanos, além de títulos nacionais e internacionais. Graduada pela ESPM, divide seu tempo entre os treinamentos e seu trabalho em uma agência de publicidade. É "cinéfila inveterada" e "leitora voraz", além de, claro: "internauta apaixonada".