Estou no intervalo A violência doméstica e sexual contra a mulher é um problema de saúde pública, que durante muitos anos esteve às margens da sociedade em diferentes culturas, sem uma preocupação das autoridades quanto às causas determinantes e suas conseqüências físicas e psicológicas para a mulher e para a família.
A violência contra uma mulher começa na relação de desigualdade sócio-cultural entre homens e mulheres. A primeira manifestação dessa desigualdade começa a se estabelecer no desenvolvimento da criança, ainda no útero materno. No momento em que os pais ficam sabendo qual o sexo da criança ainda na fase embrionária, se impõe a primeira diferença cultural entre os sexos e se estabelece o papel que cada um terá que cumprir no seu meio ambiente.
Se forem meninos, nossa cultura estabelece que deverão ser os provedores e, para isso, precisam manifestar sua agressividade e virilidade através da força, do comportamento dominador, territorial, de conquista e de busca pelo sexo. Se forem meninas, ao contrário, serão o sexo frágil, cumprirão as funções de procriação, as maternas, de manutenção do lar e das relações familiares. Serão submissas, expectadoras, cabendo a elas a tarefa de compreender e perdoar. A religião terá papel importante e fortemente influente no comportamento da mulher para manter um casamento promissor e indissolúvel.
Essa mesma sociedade que sufocou as mulheres por séculos, reprimindo toda forma de manifestação social, cultural e sexual, vem mobilizando no Brasil, desde a década de 70, uma revolução sócio-cultural, política e econômica que a passos lentos, vem estimulando as mulheres a começarem a quebrar tabus e a deixarem de ser a parte invisível da sociedade, denunciando qualquer forma de agressão imposta contra elas ou sua família.
Mesmo assim, as influências de fatores culturais e religiosos sobre elas e sobre a família estão presentes e são muito marcantes. Infringir normas e regras pré-estabelecidas pela educação e religião pode significar uma ruptura social e familiar muito mais penosa do que elas possam suportar. É muito duro enfrentar o medo da culpa, do julgamento e a vergonha pela quebra do vínculo conjugal.
Quando elas tomam a atitude da denúncia e da punição contra o parceiro violento, não o fazem tão somente convictas de seus direitos e sentimentos. Elas sentem-se muito mais culpadas do que vítimas, responsáveis por seu lar desfeito e desestruturado. A sociedade em que ela vive: seus amigos, familiares e a comunidade religiosa a que pertence cobra delas a dissolução da família.
Muitas preferem manter a família unida sufocando a dor da violência física e psicológica, com medo do mito de serem penalizadas por um mal muito maior, um castigo divino que as responsabilize pela desunião da família.