O Jornal Valor traz uma matéria, em seu caderno de cultura, sobre a francesa Elisabeth Badinter.
Para quem não se lembra, ela é a mais importante feminista da França, ou talvez mesmo do continente europeu.
Badinter volta a frequentar a mídia porque está alertando as mulheres para um perigoso retrocesso em suas conquistas que pode ocorrer por exigências dos ambientalistas. Por exemplo: o uso de fraldas descartáveis se tornar "politicamente incorreto", a sugestão de trocar alimentos industrializados por orgânicos e potinhos de comida infantil por purezinhos feitos em casa e tudo isso vir a somar mais trabalho na já conhecida dupla jornada feminina, fazendo com que a incompatibilidade aparente entre a vida profissional e a vida doméstica se torne ainda maior.
Tudo isso e muito mais está no livro "Le Conflit, La Femme e La Mère" (O Conflito, a Mulher e a Mãe - a ser lançado no Brasil pela Editora Record e ainda sem título em português).
Há três décadas, a autora botou fogo nas discussões feministas quando publicou o antológico "Mito do Amor Materno" onde mostrava que o amor materno é uma simples invenção das necessidades econômicas do final do século XIX e que mãe nenhuma ama os filhos por instinto biológico, mas sim por opção consciente. Muitas vezes, nem ama.
Como sempre acontece quando Elisabeth Badinter bota a boca no mundo, muita gente cai matando em cima dela. Mas, na minha maneira de ver, ela está sempre certa.
Fiquei entusiasmada ao ver fotos da Badinter no jornal. Fotos dela são uma raridade na mídia e depois que a poeira, que suas polêmicas levantam, abaixa, todo mundo quer se esquecer dela bem depressinha.
Badinter, assim como outros seres humanos da vanguarda, que vivem muito à frente de seu tempo, é profundamente odiada pelos covardes sociais. E é sempre bom lembrar que a grande maioria dos seres humanos morre de medo das mudanças sociais e passa a detestar e, se possível, esquecer os vanguardistas que ousam propor essas mudanças.
Tenho muito orgulho de, numa escala muitíssimo mais modesta que a Badinter, fazer parte do time dos odiados da vida. Na minha adolescência diziam que eu era uma pessoa "capaz de tudo", por causa do que muita gente considerava a minha ousada atitude diante da vida.
Não sou capaz de tudo. Sou incapaz de matar, de comer quiabo e, graças a Deus, também sou incapaz de odiar alguém por mais de meia hora.
Todas as minhas convicções sobre a repressão sexual foram consideradas "absurdas" durante muitas décadas. Hoje, defendendo essas mesmas convicções, sou primeiro lugar de audiência na Rádio Tupi AM de São Paulo e meus ouvintes se manifestam muito positivamente sobre as mesmas convicções que escandalizavam editores, professores, censores da Ditadura e similares na década de 1960.
Isso me mostra claramente que aqui, no Ocidente, evoluímos sexualmente, que estamos muito mais sadios do que éramos na época da minha juventude, quando eu ousava viver uma liberdade sexual que escandalizava, mas que já era e fora vivida por mulheres excepcionais como Anais Nin, Pagu, Leila Diniz, Luz Del Fuego, Virginia Lane, Gilda de Abreu e tantas outras.
A grande questão que parece escapar a este debate acirrado sobre a contraposição entre o trabalho profissional e a maternidade está justamente na negação, às mulheres e pelas próprias mulheres, da opção.
Ninguém questiona um solteirão que nunca quis ser pai.
Mas todo mundo acha um horror uma mulher que não quer ser mãe.
Cada vez mais, mulheres percebem que não tem, como outras a tem, a vocação para a maternidade. Mas a maioria ainda considera que a maternidade é "sagrada" ou que a mulher só se realiza sendo mãe e outras solenes bobagens que foram incutidas na cabeça social exatamente, como diz a Badinter, pela necessidade econômica de gerar um monte de mão de obra.
A necessidade acabou mas o costume continua.
Hoje o mundo não precisa mais de tanta gente. Ao contrário.
Mas, agora que se criou o grande mito do amor materno e da necessidade absoluta e imperiosa de gerar criancinhas, como ficamos?
A Dra.Angelita Gama, pioneira cirurgiã e Professora Titular da Faculdade de Medicina da USP, foi uma das brasileiras que, entre a carreira e a maternidade, preferiu optar pela carreira. Hoje muitas mulheres estão fazendo isso. Eu fiz isso e nunca me arrependi.
Não são todos os seres humanos que trazem em si a vocação da maternidade ou da paternidade.
Por isso não adianta nada a mulherada ficar brigando entre si, procurando soluções para conciliar a maternidade com a vida profissional, modelos que serviriam para todas as mulheres. Há vários tipos de mulheres. Não somos todas iguais. Não precisamos de padrões únicos.
Sempre haverá aquelas que vão preferir dedicar-se integralmente aos seus filhos. E não há nada de errado com elas. Como não há nada de errado com aquelas que preferem dedicar-se integralmente às suas atividades profissionais.
Paz para a Badinter! Ela bem a merece.