Não sou saudosista. Adorava o Dr.Kildare, quando era criança, mas acho que realmente Dr.House está mais para a realidade do que o mediquinho branquinho, WASP, bonzinho e galã dos seriados de TV da minha infância.
No entanto, embora todos saibamos muito bem que os médicos não são os deuses que eles pensavam que fossem no século XX, há uma relação mágica entre médicos e comuns mortais.
Médicos são um pouco como pagés. Quando estamos doentes pouco nos importam os princípios cientificos que esclarecem a nossa doença ou a pesquisa caríssima e suada que criou a molécula que fará eficaz o medicamento que nos trará a cura.
Quando estamos doentes, quando sofremos um acidente, quando estamos com uma dor daquelas, corremos para o médico e, só de entrar na sala de espera do consultório ou no corredor do hospital, já nos sentimos bem melhor. Quando o doutor nos examina, então, o consolo é quase indescritível.
Por isso, se essa confiança for abalada por histórias pouco edificantes de moral duvidosa, de conduta antiética, de imperícia ou simplesmente de uma saúde pública caótica como a brasileira, a imagem mágica do médico, que já é meio caminho andado para a cura, poderá se partir e estaremos todos muito mais para Houses do que para Kildares.
Porém tanto o House quanto o Kildare são extremos radicas.
Se o último era semi-deus o primeiro é o próprio demônio.
Que importa que House consiga desvendar os mais intricadamente misteriosos diagnósticos se ele não tem um pingo de humanidade, um neco de piedade, nada de solidariedade com a dor de seu paciente?
Todo mundo sabe, hoje em dia, que a doença tem três faces: a física, a emocional e a sociocultural.
Portanto, confiar no médico é um passo imprescindível para a cura.
Em 1848 os Estados Unidos forneceram - depois de muito briga e muito nariz torto - o primeiro diploma universitário de médico a uma mulher. O nome dela era Elizabeth Blackwell e, exatamente como tantas outras médicas pioneiras, a ela foi permitido apenas se especilizar em ginecologia e pediatria: coisas de mulher.
A arte de curar, no entanto, historicamente, esteve muito mais em mãos femininas do que masculinas. Curar, em outras épocas, era feitiçaria e feitiçaria era coisa de mulher.
Eram as mulheres que detinham as fórmulas das ervas curativas e suas combinações, cozinhadas nos grandes caldeirões negros.
Foram as mulheres que,primeiro, aprenderam as artes dos partos e dos abortos.
Quando, com o advento da dominação das civilizações cristãs, os homens puseram pra escanteio a sabedoria milenar feminina e queimaram seus acervos e suas titulares durante os seiscentos anos de fogueiras da
Inquisição, criaram o monopólio masculino do conhecimento.
Deu nisso: a Medicina virou privilégio dos homens e, há muitíssimo pouco tempo, permitiu que mulheres estudassem e exercessem as práticas médicas.
Mulheres, no entanto, a partir da segunda metade do século XIX, começaram a reivindicar seus direitos nas sociedades ocidentais e, entre estes, o de serem médicas.
Acontece que, depois de milênios de repressão, ao entrar no mundo dos homens as mulheres sofreram com a tendência de assumir a postura dos homens nas suas respectivas áreas de atuação. (Quem não se lembra das executivas do começo dos anos 1980 que usavam tailleurs de corte masculino e com enormes ombreiras?).
Essa tendência porém é passageira. Hoje as mulheres já percebem que, em vez de assumir os valores dos homens no mundo produtivo, nas empresas, nas diversas profissões, o que elas tem a fazer é levar a contribuiçao de sua feminilidade a estes mundos.
Por isso, as médicas são as que humanizarão os Houses da vida sem, entretanto, torná-los Kildares.
Mulheres estão mais próximas da dor e da compreensão.
Mulheres estão mais próximas do carinho, da maternagem e da ternura.
Convenhamos, qualquer cura é bem mais fácil com tudo isso.