Atravessar grandes mares traz novos horizontes.
(Mensagem que encontrei dentro de um biscoito da sorte uma vez)
Nós todos, às vezes porque escolhemos e às vezes porque somos escolhidos, passamos por algum tipo de mudança. Eu decidi, logo que saí do colegial, que ia fazer a maior mudança da minha vida até aquele momento: sair do meu ninho, e ir para a Suíça à procura de um presente e talvez de um futuro.
À medida que o tempo de me mudar ia chegando, fui entendendo cada vez mais do que estava abrindo mão - minha família, meus amigos de muitos anos, meu namorado. E como "o diabo que você conhece é melhor que aquele que você não conhece", ficava deprimida e apavorada cada vez que me imaginava desaparecendo pelo portão de embarque em Cumbica. Mas ainda assim, por pior que fossem as coisas, dizia a mim mesma que aquilo tudo era minha escolha - o mundo esperava por mim, e eu o queria.
Depois de um ano na cidade de Genebra, posso dizer que cresci, fiz novos amigos, passei por situações desagradáveis e também tive experiências positivas. Aprendi a me conhecer muito melhor; fiquei dias sem trocar uma palavra com ninguém. Olhei dentro de mim e me tornei quem eu queria me tornar. A solidão que era desconhecida para mim provou ser exatamente o que eu precisava. Senti falta daqui, mas encontrei uma realidade, uma existência infinitamente fascinante, que valeu cada vez que eu chorei de saudades da minha casa, do meu Brasil.
Desisti do curso de Relações Internacionais na faculdade que fui fazer - depois de um ano lá, me pergunto como imaginei que alguém como eu pudesse ser feliz fazendo qualquer outra coisa além de escrever. Entrei em outra faculdade suíça e em março volto pra lá. É minha escolha - e a conseqüência, eu sei, será mais uma vez encontrar a mim mesma; dessa vez como uma mulher e não uma menina assustada que chutou a si mesma do ninho.
De volta ao Brasil temporariamente, arrumei um trabalho em uma produtora de livros e documentários sobre a América Latina. Foram os três meses mais felizes da minha vida. Lá, finalmente confirmei que minha vontade de escrever e trabalhar com arte era inegável. E apesar de ter encerrado minhas atividades lá hoje e estar triste por isso, a experiência que tive foi maravilhosa e as pessoas que me guiaram durante esse tempo podem ter a certeza de que nunca serão esquecidas, e cuja presença teve mais valor do que um ano de faculdade.
Talvez, no fundo, não exista uma verdadeira mudança; talvez em toda forma de mudança esteja escondida uma escolha.
Mas, invariavelmente, não importa a mudança; importa a conseqüência e a conseqüência quem faz sou eu.
Quanto mais eu mudo, mais me convenço de que eu sempre serei eu mesma. Quanto mais pulo de um lugar para outro, mais me convenço de que sou uma pessoa melhor, mais madura, dentro de uma identidade que nenhuma mudança nem nada jamais vai poder mudar. Eu nunca tive identidade nacional; tenho dupla cidadania, mas sou uma brasileira com cara de gringa. Na Suíça, até abrir a boca para dizer o que penso e insistir no que acho certo, não sou ninguém. Na verdade, acho que se eu não abrir a boca e dizer o que eu penso, não sou ninguém em lugar nenhum.
Eu olho no espelho e vejo minha própria identidade: qualidade, falhas e detalhes - e meu espelho é meu lar e meu país.
c=hthuluhxfgxhlfkjhjth.info/urchi