A esposa diz para o marido, com o olhar vagando no espaço, como se procurasse apoio, sem encontrar: "É, preciso te falar uma coisa. Espero que você não fique chateado comigo, mas é que...bem, você sabe...". A garota ensaia começar uma conversa com o pai: "Sabe o que é? Na verdade...". O empregado, com as mãos suando, dirige-se ao chefe: "Ó, é o seguinte" e sente a voz fugir. Embaraçado, ele tenta de novo: "Bem, é que, na realidade...ó". E continua tentando, agora experimentando outras tantas palavras que, fora de contexto, não esclarecem absolutamente nada como "enfim", "de fato" e "praticamente".
Quantas vezes você não se pegou usando expressões como estas para introduzir uma conversa que considerava, no mínimo, delicada? E quantas outras você já foi vítima de quem adora fazer suspense antes de chegar às vias de fato? Tanto para quem fala, quanto para quem escuta, o clima de tensão e apreensão toma conta. Sintomas como olhos arregalados, boca seca e tremor em várias partes do corpo se intensificam. Há quem chegue a ter palpitações, tontura e até sensação de desmaio.
Quando é preciso falar sobre algo que consideram constrangedor ou problemático, muitas pessoas têm a tendência de fazer rodeios em torno do assunto, buscando uma "desculpa" ou um argumento para atenuar os possíveis efeitos da tal "conversa-bomba". É como se preferissem adiar um sofrimento que sabem, mais cedo ou mais tarde, terá que vir à tona. Guiam-se pelas memórias da infância quando tentavam se esquivar dos pais ao serem pegos com a boca na botija. Eram crianças e por mais que seus beiços lambuzados de brigadeiro denunciassem suas travessuras, negavam de pés juntos que não tinham tocado em doce.
Quando se tem 5 ou 6 anos e cara de anjinho esse tipo de comportamento é visto com bons olhos, considerado "engraçadinho" e sem importância. O problema é levar essas atitudes para a vida adulta. Um bom exemplo disso pode ser visto diariamente no noticiário. Os políticos investigados pelas CPIs juram pela família e por quem mais for preciso que não cometeram nenhum delito e vão ganhando tempo até conseguirem evitar debates mais intensos e verem tudo cair no esquecimento sem que sofram punições.
Outras vezes, muito se pensa, se imagina, se especula sobre como a pessoa vai receber determinada notícia. Expectativas são criadas, o receio de magoar, de contrariar, de deflagrar uma briga só aumenta a ansiedade e dificulta a comunicação. E chegada a hora tão temida, tudo ocorre tranqüilamente, e ouve-se um confortante "Tudo bem" ou "Que bom, não há problema nenhum nisso".
Ainda existem uns poucos que preferem dizer tudo "na lata", de uma vez só. São muito mais práticos e acham que o que tiver de ser será e que é melhor "desembuchar" logo. Em alguns casos, talvez esse seja mesmo o melhor jeito de resolver uma situação delicada. O importante é perceber qual a melhor forma de começar um "papo sério", não fazendo assim uma tempestade num copo d`água nem despejando uma notícia bombástica de um jeito completamente desastrado. E para equilibrar essa equação nada melhor do que sensibilidade.