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Comportamento Social

Você tem preguiça de viver?
Data: 26/04/2005

Por: Fernanda Domingues

É muito feio admitir que se tem preguiça. Mas quem nunca sofreu desse mal que atire a primeira pedra. Todo mundo já teve de conviver, em algum momento da vida, com essa palavrinha que faz toda diferença quando resolve fazer parte do nosso dia. Acordar cedo naqueles dias de chuva fininha, com um friozinho gostoso - que sem rodeios te convida para ficar debaixo da coberta pelo menos pelas próximas 24 horas - é arriscado. Arriscado para a sobrevivência do seu chefe, marido, sobrinho, irmã mais nova e até da sua manicure que terão de suportar o mau humor altamente justificável.

 

O pior de tudo é que às vezes sequer percebemos que estamos com a "preguicite". Ela vem devagarzinho, sem fazer barulho, parece que calça sapatinhos de lã. Mas quando abrimos o olho ali está ela, prestes a se transformar em uma preguicite aguda. Começa com o desânimo tênue, quase imperceptível, de estudar para a prova de inglês. Depois afeta a paciência para continuar a leitura de um dos seus romances prediletos. Até aquele seriado da TV que você não perde nem que isso afete a comemoração dos quatro anos de namoro você tem ânimo de assistir. É um mal que atinge a qualquer um de nós.

 

Mas sabe, em uma dos meus atuais e raros momentos de inspiração, comecei a refletir sobre a mais perigosa de todas as formas de preguiça: a preguicite da vida. O insight surgiu depois de um bate-papo - daqueles que você acredita piamente ser mais um passatempo do que uma oportunidade de crescer intelectualmente - com uma amiga. Ela estava com medo de assumir um relacionamento com quem, até então, seria o par ideal. A verdade é que ela me confessou estar com preguiça - usou essa palavra feia mesmo! - de paquerar, depois de namorar e... E se não der certo?

 

Tentei dar minha opinião, nada além do senso comum, confesso. Disse que na vida há riscos mesmo e só saberemos se algo vai dar certo se provarmos. Não existe, ainda, a possibilidade de saber se um bolo está gostoso só de olhá-lo. Por mais que nos deixemos nos levar pela aparência, não dá para saber se o Antonio Banderas é chato - acho impossível, mas tudo bem - ou simpaticíssimo por natureza sem conhecê-lo, certo? Enfim, não disse nada além do comum.

 

Mas confesso que desde então ando pensativa em relação à "preguiça da vida", um dos principais males da humanidade de hoje, acredito. Parece que o desânimo de viver tornou-se uma epidemia entre nós. É a preguiça de sorrir e desejar "bom dia" ao caixa do banco antes de efetuar o pagamento. A falta de paciência de continuar o curso de inglês que você já parou dezenas de vezes. O desânimo de se relacionar, conhecer, ouvir a história do outro. Preguiça de viver!

 

Ainda bem que minha amiga ex-preguiçosa resolveu dar uma chega para lá no sedentarismo psicológico. Talvez tenha percebido a tempo a importância de se viver e de se passar por experiências - sendo boas ou ruins. Ou talvez tenha permitido conhecer melhor o parceiro por falta de paciência de não ter paciência. O importante é que não se desista de viver. E quando o desânimo chegar, é levantar a cabeça, enfrentar a vida e dizer: combati o bom combate, acabei a carreira e guardei a fé.


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