WMulher
Comportamento Social
 
 

Bárbara. Santa. Guerreira.
Data: 05/12/2008

Por: Isabel Vasconcellos Caetano

No dia 4 de dezembro é comemorado em todo o mundo cristão o dia de Santa Bárbara. Ela viveu entre os séculos III e IV e foi morta pelo próprio pai que, pagão, a denunciou como cristã que ela se tornara. O tribunal a condenou a morrer queimada, mas antes teve os peitos decepados e foi o seu pai quem cortou-lhe a cabeça com uma espada. Diz a lenda que, minutos depois, uma tempestade se formou e um raio o atingiu matando-o na hora.

 

Por isso Santa Bárbara é a santa das tormentas, raios, tempestades e é sempre representada com palmas e espadas.

 

Quando os escravos africanos (ao contrário de Santa Bárbara) foram obrigados a fingir que professavam a fé cristã de seus senhores, eles começaram a identificar os santos católicos com seus deuses. E Santa Bárbara virou Iansã, a rainha dos ventos, dos raios e das tempestades.

 

Iansã é uma das esposas de Xangô.

A outra é Oxum, aquela que traz na mão direita um espelho.

Iansã sai ao lado de Xangô, guerreiro, para a batalha.

Oxum - lembrando um pouco a rainha má dos contos de fadas - fica a mirar-se no espelho. Existe alguém mais bela do que eu?

 

Há mulheres que são oxuns, há mulheres que são iansãs. Não é preciso muita imaginação para aplicar os exemplos.

 

Mulher dividida,

Mulher dividida, lutando por uma posição no mundo, negando-se a ser objeto, negando-se a ser adorno. Partindo para a luta do cotidiano, mulher sofrendo em dobro.

 

Sofrendo para deixar de ser oxum, a mirar eternamente sua própria imagem, seu próprio umbigo, seu pequeno mundo distante da rua, da guerra, da briga pela sobrevivência. (Carolina na janela. Penélope à espera de Ulisses).

 

Temos mas é que ser Iansãs.

 

No entanto, o mundo ainda nos cobra os dois papéis, simultâneamente.

A guerreira, quando retorna à casa, deve subitamente, transformar-se em Oxum: dócil, meiga, enfeitando-se pro seu homem, desdobrando-se em atenções familiares. Mas esta Iansã que vem da batalha da rua - competindo em desigualdade com os xangôs desta vida - talvez não queira mais fundir-se em Oxum. Talvez queira trazer para o mundo doméstico os ranços, as esperanças, derrotas e conquistas de seu dia a dia.

 

Coragem. Desafio. Raio. Tempestade. Força.

É hora de ser iansã, sem máscara, companheira e amiga de Xangô.

É hora de, como queria o poeta, ir para a rua e beber a tempestade. ("Cala a boca, Bárbara"). Para que então sejamos uma.

A oxum de boa cabeça, tranquila, bonita, sexy e perfumada, há de ver, de repente, refletida no fundo do espelho, a brava guerreira. Aquela que tem nas mãos a força da natureza, a explosão da tempestade, a liberdade dos ventos e um amor imenso, fruto da batalha.

Aquela que ousa. E já não se pode calar.

 

Isabel Vasconcellos é escritora e produtora e apresentadora deTV.

No próximo dia 8 lança, na FNAC Paulista, seu sétimo livro: O Fantasma da Paulista.  O coquetel de lançamento acontecerá das 19 às 22 horas e as leitoras do wmulher serão benvindas.