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Entrevista com: Teca Forjaz
Data: 31/01/2001

Por: Domitila Farina

3. Como psicóloga e 4 x mãe, como encara a assertiva de Ashley Montagu ("Tocar"), segundo a qual a cesárea é uma violentação para mãe e filho, com sérias repercussões  psíquicas para o futuro do último? A senhora acredita que isso poderia explicar a benevolência e falta de agressividade do povo suíço? Naquele país, a cesárea é proibida, salvo em casos de risco de vida para mãe ou filho.

R: Tive três filhos de parto normal. Nunca pensei em tê-los de outra forma. Porém, com o meu quarto filho foi diferente. Possivelmente devido à situação em que eu me encontrava - fora de minha casa, do Estado em que eu morava e de passagem (tinha ido a São Paulo num dia para voltar no outro). Não consegui entrar em trabalho de parto normal. Meu neném já estava em sofrimento, me obrigando a entrar numa cesárea. Não gostei da experiência, chorei muito durante o parto. Não vejo razão para contrariar a natureza.  Apesar de ter tido um sofrimento psíquico durante o parto,  meu quarto filho foi sempre uma criança  tranqüila, um menino  calmo e hoje, um jovem adulto muito equilibrado.  Desconheço as características do povo suíço, portanto me abstenho de opinar.

4. Nossa cultura não valoriza a experiência da mulher madura. Haja vista a  rotineira passada a limpo no bisturi depois dos 30. Muitos e muitas consideram a menopausa o início do fim. Como o assunto é tratado na sua monografia de conclusão da Faculdade de Psicologia?

 R: Nossa cultura não valoriza a experiência do mais velho, seja ele homem ou mulher.

Quanto à menopausa, senti na pele a falta de informação sobre este assunto. Por isso escolhi este tema como monografia.  Consegui, através questionário, entrevistar 55 mulheres de diferentes Estados do Brasil: São Paulo, Bahia, Rio de Janeiro e Santa Catarina. Concluí que a menopausa é ainda um tabu entre as mulheres. Talvez, comparável ao tabu da virgindade nos anos 60 e 70. Muitas mudanças corporais e psicológicas, como na adolescência. Porém, o sentimento de perda é mais profundo. Perde-se a capacidade de procriar e isto, ainda, está muito ligado à sexualidade da mulher. Está diretamente ligado ao assunto perda da juventude. É um tema delicado e instigante.

5. Quando era criança, o seu pai expulsou de casa o   cachorrinho ao qual a senhora era muito apegada. Ao ter o seu primeiro filho, nem sabia quem seria o  obstetra responsável pelo parto. Para citar apenas dois exemplos de situações que fariam desmontar qualquer criança ou mulher. Como tirou de letra essas e muitas outras sem choro, vela ou traumas?

R:         Fiquei muito chocada. Levei um bom tempo para ter outro cachorro.

Quanto a não saber quem seria o meu obstetra, não fiquei preocupada. Não sou chegada a pensar em tragédias, sempre acho que tudo irá dar certo. Naquela época, eu era muito jovem, pouco entendia de complicações que poderiam acontecer durante o parto, portanto, não fazia diferença conhecer ou não o médico, o menino iria nascer de qualquer jeito...

6. Quando grávida, sempre se sentiu poderosa. Qual sua mensagem para as gestantes que se sentem desengonçadas?

R: Na minha opinião, a gravidez, para ser curtida, tem que ter o apoio integral do pai. Meu marido me achava a mulher mais linda do mundo. Com o seu estímulo, as mudanças que aconteciam no meu corpo eram muito bem-vindas! Esse é um momento onde o homem tem que ser um companheiro e admirador incondicional!

7. No passado, a senhora chegou a dizer  "dinner is over" (acabou o jantar) para o jantar que acabava ir para a mesa. Depois, aprendeu tão bem a língua que chegou a negociar em inglês a venda da indústria de seu marido, sozinha. Trata-se de mais um de seus muitos  pulos felinos?

R: Sim.  Sabe, eu sou muito cara de pau. Não tenho vergonha de errar e adoro aprender. Sempre tive uma vontade louca de falar inglês por me considerar uma pessoa do mundo. Não foi fácil, mas consegui!

8. Mais de 30 anos casada e com amor indo de vento em popa, a ponto de seu marido aparecer nas suas aulas de faculdade para ficar flertando de longe. O mesmo marido que elogia (no prefácio de "O pulo da gata")  suas meninice e intuição e  a paixão, respeito e cumplicidade que permeiam o seu casamento. Isso significa que a senhora nunca deixou que roubassem os seus sapatinhos vermelhos * (Clarissa Pinkola Estes)?

R: Não só nunca deixei que os roubassem como também encontrei alguém que sempre soube remendá-los quando necessário fosse.

*  "Para manter nossa alegria, às vezes temos de lutar por ela. Temos de nos fortalecer e ir fundo, combatendo da forma que considerarmos mais astuta. A fim de nos prepararmos para o sítio, podemos ter de abdicar de muitos confortos por algum tempo. Podemos viver sem a maioria das coisas por longos períodos, praticamente sem qualquer coisa, mas não sem a nossa alegria, não sem aqueles sapatos vermelhos feitos à mão"

9. Ainda no prefácio, o seu marido sugere  o-pulo-do-gato como a arte de manter a mulher, a companheira, como se  o homem estivesse segurando um sabiá: nem muito apertado e nem frouxamente, para evitar machucados e fugas. É por aí?

R: Sem dúvida. Porém, não é bem manter a mulher e sim, a relação. Aristóteles já dizia que se usarmos o meio termo, dificilmente erraremos.

10. A autora do livro "Mulheres que correm com os lobos" menciona a mulher esqueleto, que é jogada fora quando um dos parceiros, ou ambos, não consegue acompanhar seus ciclos de transformação. Seria essa a explicação da epidemia de desencontro que enfrentamos, quando relatos de uma duradoura felicidade conjugal como a sua são raros?

R: Acredito muito na paciência. Hoje, devido à vida agitada e dinâmica que se leva, não há espaço para a paciência. Ela demanda tempo. Hoje as pessoas não tem tempo para nada. Um momento não pode ser considerado uma história e sim, uma parte dela. Tem que se ter paciência para vivenciar mais momentos.

11. Seria possível citar uma experiência marcante das muitas tidas com o animado grupo de vendedoras baianas, mencionado no seu livro?

R: A maioria de nossas vendedoras nunca tinha viajado de avião. Certa vez, após batermos todos os recordes de vendas, algumas delas foram receber os prêmios das mãos do Gerente Geral, em São Paulo. Estavam nervosas e excitadas com a viagem. Era a primeira viagem aérea delas. Avisamos, então, que não se dava gorjeta para as aeromoças, nem se abriam as janelas para ver a vista. A ingenuidade de muitas era comovente.

 12. Na sua autobriografia, o patinho, que se considerava feio, transformou-se em cisne. Para quem não teve ainda a oportunidade de ler "O pulo da gata", como se deu a transformação ? Achar a verdadeira família psíquica e ter a sensação de pertencer a um todo é um bom começo?

 R: Essa transformação se deu motivada pela riqueza do meu universo interior que pode ser exteriorizado através de uma psicoterapia muito bem sucedida.

 13. O que provoca a presente epidemia de bulímicas, anoréxicas e "panicadas"?

R: A baixa auto-estima.

 14. Não é propriamente um tema de psicologia, mas, como cidadã brasileira, como encara as nossas exclusões social e digital?

 R: Há duas semanas atrás, reuni na minha pousada um grupo de 20 mulheres, de diversas idades - 20 a 74 e de diferente poder aquisitivo.  Todas inseridas no mercado de trabalho e somente 20% não estavam na era digital. Pasme, não era a de 74 anos!  Esta exclusão faz parte do mundo como tal - extremamente masculino. Não é somente um problema das brasileiras, mas das mulheres de países em desenvolvimento. Nos países desenvolvidos esta discriminação é crime.  Todos têm os mesmos direitos.  Ainda chegaremos lá.  O importante é saber que muitos caminhos já foram abertos e com certeza, outros mais serão.  Isto só depende de nós, não podemos desanimar!

 15. Bahia, Recife, SP, Florianópolis etceteras. Muitas mudanças sem nenhuma reclamação. Qual o segredo?

 R: Sou filha de militar. Acostumei-me a encarar mudanças como sendo algo para melhor. Por isso, vou de peito aberto para novas situações.

16. A senhora  curtiu e achou o maior "barato" a lua-de-mel passada em um bordel por falta de reserva no hotel desejado. Chegou a chamar o período de via Láctea ou céu de mel. É natural, de sua parte, bater o cítrico com água e açúcar para a limonada suíça ou trata-se de uma programação prévia?

 R: Uma de minhas características é o otimismo. Mesmo nas situações mais adversas, nunca perco as esperanças.  Sempre acho uma forma de me adaptar ao que está acontecendo e, se a situação não for a das melhores, me esforço para não piorá-la. Sou muito condescendente comigo mesmo, não costumo me culpar quando as coisas não acontecem como eu imagino. Muito pelo contrário, "relaxo e gozo".  

17. Como psicóloga, o que acha da assertiva de  Freud ("The future of an Illusion"), segundo a qual a religião é a mais perigosa das ilusões?

R: Adoraria saber sobre todas as colocações de Freud. Mas, ainda não sei. Mas, posso opinar sobre esta sua assertiva. Tudo que você acredita profundamente na área do irreal comandando os acontecimentos, tira o seu poder de reagir e de procurar soluções próprias. Aprendi que muitas coisas podem lhe acontecer apesar de você, porém você é responsável pelo seu livre arbítrio.

 18. Com qual corrente da psicologia se identifica?

R: Freudiana.Higiene mental para mim é estar de bem comigo, seja em qualquer plano: espiritual, intelectual ou físico.

 19. Quais suas atividades e projetos?

 R: Atualmente, atendo os meus pacientes no meu consultório em Alphaville, onde moro. Organizo atividades diversas (Encontro de Mulheres, SPA Light etc.) na minha pousada, em Búzios, Rio de Janeiro e estou acabando de reformar meu novo lar no Rio de Janeiro. Tenho uma confraria interestadual de mulheres ( Confraria da Lilith)  e nos reunimos uma vez por mês.  Saímos para trocar experiências em todos os setores e degustar vinhos.  Dedico-me ao projeto Alfabetização Solidária adotando mensalmente algumas dezenas de brasileiros. E outros pulinhos mais... Pois,  os meus filhos ainda estão todos em casa!

Tenho vários projetos, inclusive um que está me deixando ansiosa: preciso aprender a cozinhar. Na minha nova casa no Rio, projetei a cozinha no meio da sala. Como eu adoro conversar, quero cozinhar participando dos papos. Tenho muita vontade de publicar um livro com as minhas poesias e minhas próprias receitas.  Vai ser delicioso em todos os sentidos! Mãos à massa...

 20. Gostaria de acrescentar algo?

 R: Sim, agradecer a oportunidade da divulgação do meu livro, pois ele dá dicas e força para que as mulheres possam se sentir melhores. Um beijo para todas da WMulher e um especial para você, Domitila.

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O livro poderá ser adquirido:

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