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Por: Flavia Hesse

Formada há 18 anos pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo,  Berenice Maria Giannella  atuou como chefe da Procuradoria de Assistência Judiciária entre julho e novembro de 1992, foi Subprocuradora Geral do Estado até 1995 e ingressou na Corregedoria Administrativa do Sistema Penitenciário em abril de 1995, como Subprocuradora Geral do Estado. Em junho de 2000, tornou-se diretora executiva da FUNAP - Fundação “Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel”, órgão vinculado à Secretaria de Estado da Administração Penitenciária de São Paulo, e vem trabalhando com a reinserção social do preso. Em 2002, Berenice recebeu o título de mestre em Direito Processual Penal na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo

WM: A senhora sempre quis seguir a carreira jurídica?

Berenice: Sim. Quando tinha 12/13 anos, minha paixão era assistir filmes na TV que retratavam julgamentos em tribunais. Posso dizer que foi daí que surgiu a minha vontade de trabalhar na área jurídica, especificamente na área penal.

WM: O que motivou a sra. a ingressar na Procuradoria Geral do Estado?

Berenice: Quando estava no 4º ano da faculdade de direito, iniciei um estágio junto ao Departamento Jurídico do Centro Acadêmico XI de Agosto. Lá atendíamos pessoas carentes que não tinham recursos para pagar advogados sem prejuízo de seu sustento ou de sua família. O trabalho, além de fascinante do ponto de vista profissional – já que tocávamos os processos praticamente sozinhos, apenas com uma orientação dos advogados – representava um desafio e uma experiência pessoal inestimável. Foi lá que percebi e aprendi que o direito servia para ajudar as pessoas, para fazer com que elas vissem reconhecidos os seus direitos como cidadãos, enfim, que o direito não era um fim em si, mas um meio para a realização do bem das pessoas. Foi, então, que resolvi seguir nesta área de assistência judiciária e a única instituição em que eu poderia fazer isto como advogada era na Procuradoria Geral do Estado – na área de assistência jurídica. Daí a minha opção pela PGE.

WM: Como foi a sua carreira pública?

Berenice: Ingressei na Procuradoria em 1987 e fui trabalhar perante a 30ª Vara Criminal da Capital, no Fórum Central. No período de 1990 a 1992 fui Secretária Geral da Associação dos Procuradores do Estado. De julho de 1992 a novembro de 1992, chefiei a Assistência Judiciária da Capital. De novembro de 1992 a janeiro de 1995, chefiei a Assistência Judiciária do Estado. Em 1995/1996 fui Corregedora Administrativa do Sistema Penitenciário, voltando para a Assistência Judiciária no final de 1996. Lá fiquei até junho de 1998, quando fui trabalhar na Consultoria Jurídica da Secretaria da Administração Penitenciária, onde fiquei até junho de 2000, quando fui convidada para dirigir a FUNAP.

WM: Como a sra. tornou-se diretora executiva da FUNAP - Fundação “Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel

Berenice: O cargo de diretora executiva é de nomeação do Governador do Estado. À época fui indicada para o cargo ao Governador Mário Covas pelo Dr. Nagashi Furukawa, Secretário da Administração Penitenciária. Penso que pesou na decisão a indicação de amigos e de pessoas que haviam trabalhado comigo, bem como o trabalho que havia desenvolvido na Corregedoria Administrativa e na Consultoria Jurídica da Secretaria da Administração Penitenciária. Acho que o fato de ter tanta ligação com a assistência criminal também foi decisivo.

WM: O que é a FUNAP?

Berenice: A FUNAP é uma fundação pública, vinculada à Secretaria de Estado da Administração Penitenciária, fundada em 1976 e que tem como missão contribuir para a reintegração social do preso, por meio do trabalho, educação e cultura, podendo desenvolver projetos também na área social (com os familiares dos presos e os egressos) e devendo contribuir com o sistema penitenciário na melhoria da qualidade de vida do preso. Neste sentido, temos professores, estagiários ou monitores presos dando aulas em todos os presídios do Estado (a exceção são os Centros de Detenção Provisória – onde os presos ainda não são condenados – e os Centros de Ressocialização – onde a educação fica por conta da Organização Não Governamental parceira do Estado). O Censo Penitenciário que a FUNAP realizou em 2002 em São Paulo demonstrou que 75% dos homens e 65% das mulheres presas não têm o ensino fundamental completo, daí porque direcionamentos os nossos esforços mais para este segmento, além da alfabetização, já que 6% dos presos e 7% das presas são analfabetos. Hoje em dia, há também uma demanda que começa a crescer pelo ensino médio. Ainda mantemos oficinas de trabalho em 20 unidades prisionais; temos um Programa de Alocação de Mão-de-Obra, por meio do qual intermediamos a contratação de mão-de-obra prisional por empresas e órgãos públicos; temos, também, um Programa de Apoio ao Egresso, financiado pelo Ministério da Justiça; mantemos projetos culturais em quase todas as unidades, pagando presos que cuidam dos respectivos Postos Culturais; fornecemos cursos profissionalizantes, enfim, uma gama de atividades que visa facilitar a reinserção social do homem preso.

WM: Qual é o tipo de preso que pode se candidatar ao programa?

Berenice: Qualquer preso pode participar dos programas da FUNAP, independentemente da idade, sexo ou tipo de crime. Não fazemos qualquer distinção: basta ele ter boa vontade e querer participar.

WM: Dos 82.839 presos (base out/02) somente 533 presidiários estavam trabalhando em empresas públicas ou privadas. A que a sra. atribuiu um número tão pequeno de presidiários trabalhando ou participando do programa?

Berenice: Dos 82.839 presos em outubro de 2002, 53% deles desenvolviam algum tipo de atividade nos presídios: ou trabalhando para empresas privadas, ou para oficinas da FUNAP ou em trabalhos internos e de manutenção dos presídios (cozinha, faxina, manutenção...). Há, ainda, aqueles que desenvolvem trabalhos de artesanato.

WM: Qual é o grau de reincidência  na criminalidade dos presos que fazem ou fizeram parte do programa?

Berenice: O Censo Penitenciário de 2002 apontou que a reincidência nos presídios é de 40%. Não temos dados para aferir se aqueles que não reincidiram o fizeram porque tiveram alguma participação em nossos programas.

WM: A Fundação também realiza um trabalho de capacitação educacional e profissional com os presos. Qual foi a adesão ao programa e há uma efetiva reinserção deles na sociedade? Eles deixam o crime de lado?

Berenice: A adesão dos presos aos trabalhos da FUNAP é muito grande nas oficinas de trabalho (nos trabalhos remunerados em geral) e bastante alta nos programas educacionais (temos alguma dificuldade para aumentar o número de presos estudando em virtude de o preso preferir trabalhar – que lhe dá dinheiro e diminuição do tempo de pena – a estudar). Ainda assim, temos hoje 16.000 presos estudando. Em 2002, desenvolvemos cursos profissionalizantes que formaram 3.800 presos e realizamos cursos de direitos humanos, prevenção às drogas e às dst/aids, que abrangeram 13.600 presos. Neste ano, para a continuidade dos projetos, estamos no aguardo da liberação de verbas pela Secretaria de Estado da Educação.

WM: Qual é a fonte de financiamento da Funap?

Berenice: A FUNAP vive de recursos repassados pelo Estado, de recursos advindos do Ministério da Justiça e da venda de seus produtos. Tudo o que fabricamos nas unidades prisionais é vendido, sendo todo o dinheiro arrecadado revertido para os nossos projetos. Só á título de informação, temos uma fábrica de móveis escolares em Pirajuí que fabrica de 600 a 800 conjuntos escolares/dia. Toda esta produção é vendida para o Estado e Municípios.

WM: O que em sua opinião precisa ser feito  para reduzir a  criminalidade e violência brasileira?

Berenice: Sem querer ser simplista, já que a questão é bastante complexa, penso que deveria haver mais investimentos na área social – educação, cultura e esportes, que, com certeza, afastam os jovens da criminalidade; um melhor combate ao tráfico de drogas – hoje meio de vida para muitas pessoas – combatendo-se os grandes traficantes; absoluta vedação no uso, porte e comercialização de armas de fogo (quando iniciei na Procuradoria Geral do Estado, em 1987, o número de furtos (subtração patrimonial sem violência) era equivalente ao de roubos (subtração patrimonial violência). Hoje, com a proliferação das armas de fogo, qualquer um rouba e, se for preciso, mata. Os furtos praticamente não existem mais). Ainda acho que há necessidade de uma conscientização da mídia sobre a questão social e uma diminuição dos apelos consumistas na televisão: a vontade de cada vez mais amealhar bens inacessíveis tem levado muitos jovens ao crime. Finalmente, acho que devemos investir mais nos projetos de ressocialização dos presos, investimentos financeiros e participação da sociedade nestes projetos: precisamos, de alguma forma, cuidar dos 115 mil presos que hoje temos no Estado, para que eles não voltem a delinqüir.

WM:: Pela atividade que a sra. exerce a sra. já foi ameaçada?

Não, nunca. Só recebi sorrisos e agradecimentos.

WM: A sra. é casada e têm filhos?

Berenice: Não. Sou solteira e sem filhos.

WM: O que a sra. faz em seus momentos de lazer? Algum hobby?

Berenice: O meu hobby principal é a corrida. Há cinco anos comecei a praticá-la para melhorar meu rendimento físico. Aos poucos, fui me apaixonando pelo esporte e participando de corridas oficiais. Hoje já corri três vezes a São Silvestre; fiz 5 meias maratonas (21Km) e acabo de completar (dia 1º de junho) minha segunda maratona (42Km). Fora a corrida, gosto de cinema e de viajar.

WM:  A sua rotina é muito estressante?

Berenice: Bastante, já que os problemas são muitos e as soluções demoram a vir. Todo o trabalho com presos demanda um tempo para a sua realização e solidificação, especialmente quando se pretende envolver outras pessoas da sociedade que não aquelas que já trabalham com o sistema penitenciário. Mas não me queixo. Gosto do que faço e combato o stress com as corridas diárias pela manhã.

WM: A sra. sente-se realizada profissionalmente? Quais são seus planos para o futuro?

Berenice: Sinto-me realizada e acho que, até o momento, cheguei onde pretendia. Só me frustro um pouco com a incompreensão das pessoas quanto ao trabalho que desenvolvo e, às vezes, a pouca vontade das pessoas em geral – sociedade, mídia e  até órgãos públicos – com a questão da reinserção social do preso. No momento, meus planos para o futuro são os que estou construindo agora: divulgar o trabalho da FUNAP, a problemática do sistema prisional e dar todo o meu esforço para que o trabalho que todos fazemos não seja em vão.

WM: Qual conselho a sra. daria para alguém que quer ingressar na Procuradoria Geral do Estado?

Berenice: É uma carreira belíssima. Vale a pena estudar para passar no concurso. Trabalhar no serviço público, contudo, não é fácil, já que as condições de trabalho nem sempre são as ideais. Mas vale a idéia de trabalhar para a comunidade (especialmente se for atuar na área de assistência judiciária).

WM: Algum recado final para nossas leitoras?

Berenice: Gostaria que todos se interessassem em conhecer o nosso trabalho e pudessem colaborar – de alguma forma – para resolvermos o problema da criminalidade que, afinal, é de todos nós.

Por: Flavia Hesse

Nossa entrevistada desta semana é advogada. Inicialmente ela sonhava em ser política, mas logo desistiu e seguiu na carreira jurídica. Atualmente ela trabalha em uma câmara arbitral. Conheça suas opiniões e como a arbitragem busca solucionar conflitos fora do âmbito do Poder Judiciário.

WM:  Qual é a sua formação?

Alessandra: Formei-me pela Universidade Mackenzie em Direito.  Fiz estágio em escritório de advocacia durante três anos. Depois de formada   permaneci no escritório atuando nas áreas de direito  comercial e na área bancária. Desde o início tive interesse  no Código do Consumidor. Atualmente exerço a advocacia e trabalho como consultora jurídica do Instituto Nacional de   Arbitragem – INAR.  

WM: Por que a sra. escolheu direito?

Alessandra: Inicialmente gostava de ciências políticas e  achava que o direito poderia dar suporte para essa atuação.  Depois fiquei decepcionada com a política, pois não era como imaginava. Ao entrar na faculdade já tinha desistido. Mudei  os planos para advocacia, como uma forma de defender o direito dos outros e de exercer a cidadania. Como advogada   teria a oportunidade de promover mudanças através de minha   atuação e teria acesso à Justiça e a legislação, talvez mais  do que se fosse política.  

WM: O que sra. acha de atuar na área contenciosa (acompanhamento de processos judiciais)?

Alessandra: É muito desgastante. Não se vê resultados por   anos. A morosidade da Justiça, criticada por todos, está  intimamente ligada a total falta de vontade política de se  fazer os investimentos necessários e a ousadia de mudar a  legislação a fim de proporcionar a celeridade tão desejada  pela sociedade. O Judiciário está abarrotado de processos. Portanto enquanto  esses investimentos não vem é importante procurarmos  mecanismos para solucionar os conflitos fora do âmbito do   Judiciário.  Há duas opções: a mediação para ajudar as partes a se compor  e evitar que a briga vá para a Justiça ou a arbitragem em que  as partes escolhem quem vai julgar seu conflito, utilizando  um árbitro especializado no assunto.     

WM: O que é o INAR?

Alessandra: É uma câmara arbitral regulamentada. Foi criada  no final de 2002 e entrou em funcionamento em 2003. Um Centro  de arbitragem nada mais é do que um administrador de  procedimentos arbitrais. Um bom centro precisa ter um bom corpo de árbitros, um regulamento eficiente, deve   primar pelo sigilo e principalmente pela confiabilidade. A base de todo arbitramento é a confiança e credibilidade.  

WM: Como funciona uma câmara arbitral?

Alessandra: Como já expliquei é um local em que se podem   trazer as questões (litígios, brigas) para solucionar o  conflito. As decisões são proferidas pelos árbitros e são equivalentes às decisões judiciais proferidas por um juiz de direito. Esta decisão não está sujeita a recursos, o que   confere maior rapidez na solução dos litígios. Ela garante rapidez, celeridade e sigilo. A arbitragem é um mecanismo eficaz de se conseguir obter   justiça, baseada na autonomia da vontade das partes, já que  elas escolhem o árbitro e as regras de direito aplicáveis ao  conflito, podendo optar pelo julgamento por equidade.  

WM: O pode ser julgado em uma câmara arbitral?

Alessandra: Qualquer assunto relativo a direitos patrimoniais  disponíveis.    

WM: Como a sra. ingressou no INAR?

Alessandra: Na realidade cresci no meio jurídico. Meu pai é  um advogado experiente, principalmente em contencioso  bancário, concordata e falência. Meu sogro, Dr. Marcio Bonilha foi presidente do Tribunal de   Justiça de São Paulo e aposentou-se compulsoriamente por  idade ao completar 70 anos. A lei de arbitragem já existia desde 1996, porém diante da  falta de cultura jurídica de sua utilização no  Brasil, vinha sendo pouco explorada.  Em razão de tantos entraves e mesmo da morosidade da Justiça,  um grupo de pessoas do meio jurídico, entre elas  Desembargadores aposentados, Procuradores de Justiça e  Advogados, uniram-se no sentido de formar um Centro de  Arbitragem como forma alternativa de resolução de conflitos.  São pessoas com vasta experiência jurídica e que muito podem  contribuir.      

WM: Quais são suas funções no INAR

Alessandra: Sou consultora e assistente do Conselho Arbitral   da Câmara. Exerço funções administrativas no instituto e faço  parte do corpo de árbitros.    

WM: Quem pode ser árbitro?

Alessandra: O árbitro é eleito pelas partes, assim qualquer   pessoa pode ser árbitro, desde que não tenha impedimento das  partes. Não precisa ser advogado para ser árbitro. O árbitro  deve ser idôneo.    

WM: A sra. é casada, têm filhos?

Alessandra: Sou casada e tenho uma filha de 3 anos.    

WM: Qual é o seu sonho ou desafio para seu futuro  profissionalmente?

Alessandra: Contribuir para o crescimento da arbitragem no   Brasil.   

WM: É difícil conciliar vida profissional, familiar e pessoal?

Alessandra: Sim é difícil.    

WM: O que a sra. faz para manter a forma física?

Alessandra: Sou adepta das corridas. Faço meia maratona e  quero baixar meu tempo para 1 hora e 45 minutos.    

WM: Quantas vezes por semana a sra. treina?

Alessandra: Corro 4 vezes por semana e faço musculação 3   vezes, ou seja, treino todos os dias.    

WM: O que a sra. acha Ada “Operação Anaconda”?

Alessandra: A corrupção existe infelizmente em todas as   esferas do Poder. O país está melhorando devido à  transparência. A corrupção também existe em empresas (diretores, setores de compras, etc). O que  tem que existir é punição, mas observado o devido processo legal e respeito ao   direito de ampla defesa. A honestidade é inerente à pessoa e  não à profissão. É preciso ter punição  efetiva aos maus  advogados, médicos, deputados, juízes, fiscais, etc.    *

* Composição do INAR:

Diretoria:

Celso Manoel Fachada – Presidente – advogado militante

Edson Edmir Velho – Vice-Presidente – Procurador de Justiça aposentado – advogado militante

Euro Bento Maciel – Corregedor – advogado militante ex Secretário Geral, Tesoureiro e Vice-Presidente da OAB/SP

Célio de Melo Almada Filho – Superintendente – juiz aposentado – advogado militante

Nestor de Araújo Góes Filho – Diretor Financeiro  ex Assessor Especial da Presidência do Tribunal de Justiça de São Paulo e ex Diretor Vice-Presidente do Banco Mercantil de São Paulo

Conselho Arbitral

Marcio Martins Bonilha – Presidente – Desembargador aposentado, ex-presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo

Almir Pazzianoto Pinto – Ministro aposentado do Tribunal Superior de Justiça

Hermes Pinotti – Desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo (4º vice-Presidente)

Roberto Della Manna – Ministro aposentado do Tribunal Superior do Trabalho

Ruy Cardoso de Mello Tucunduva – Procurador de Justiça aposentado do Estado de São Paulo – advogado militante

Mary Warlick

Por: Domitila Farina

Diretora - The One Club, Nova Iorque

De olho na publicidade

Mary Warlick vive de e para a publicidade, mas sem exageros. Nos intervalos, ela recarrega as baterias com esportes de inverno, leitura e montaria. Mas esses hobbies são apenas uma-pausa- para-café na vida da publicitária  norte-americana que fundou, há três anos, One Show Interactive.

O evento acontece anualmente em Nova Iorque e premia  a excelência da publicidade internacional.

As peças premiadas  deste ano foram apresentadas por Mary Warlick em exposição na escola Panamericana, em São Paulo (09.00). O Brasil destacou-se com o trabalho de três agências:

1º -  DM9DDB -  Lápis de Ouro, pelo Banner para o Universo Online
2º - AgênciaClick  -  Lápis de Bronze, pelo Banner para a campanha da General Motors
3º -  F/Nazca  -  Lápis de Prata, na categoria Serviço Público – Campanha para Jornal ou Revista realizada para a Fundação SOS  Mata Atlântica).

Como diretora da one.amagazine, uma revista feita por publicitários para os profissionais da área, ou como leitora dos autores ingleses do século XIX, Mary Warlick não se esquece do leit-motiv de sua vida. Até porque,  como  disse ao WMulher, parece tratar-se de uma questão de sobrevivência:

Publicidade é uma profissão que usa ... pessoas criativas que, de outra forma, talvez não pudessem aqüentar a si próprias com seus respectivos talentos.” – M. Warlick

1. Quais as principais metas do one.amagazine?

Mary - A revista foi criada com o objetivo de se transformar em uma vitrine do que há de mais criativo na publicidade. É o único jornal escrito por publicitários e para eles. Há uma quantidade imensa de publicidade produzida por agências em todo mundo que não é, necessariamente, criativa. Ela copia fórmulas, utiliza velhas idéias ou idéias já usadas anteriormente, sem trazer nada de novo.

2. Seria possível nomear as principais características de uma boa peça publicitária?

Mary - A boa publicidade coloca o produto ou serviço em uma posição atraente que obriga o consumidor a vê-lo com novos olhos ou a dar-lhe uma segunda olhada. Para a publicidade criativa ser efetiva precisa estabelecer um forte vínculo com a marca do produto ou, então, trabalhar para estabelecer uma identidade. Eu me lembro da campanha brasileira da Folha (jornal Folha de SP), belamente elaborada, uma idéia excelente.

3. Qual a sua formação acadêmica?

Mary - Sou formada em História da Arte. Tenho mestrado e doutorado pela Columbia University, de Nova Iorque.

4. Como é o diálogo entre a vida profissional e a vida pessoal de Mary Warlick?

Mary - Meu trabalho e minha vida privada não estão, necessariamente, separadas. Muitos de meus amigos freqüentam jantares que ofereço para o pessoal de publicidade. No entanto, eu também mantenho uma casa de fim de semana, um cavalo e as vidas profissional e pessoal um pouco separadas. Esporte, montaria e jogging são excelentes maneiras de uma pessoa mudar de atitude diante de tanto trabalho.

5. Qual foi a alteração sofrida pela publicidade com o advento da Internet?

Mary - A Internet forçou os publicitários tradicionais a pensarem além da página ou da tela de tv. Publicitários realmente inteligentes estão usando a Internet para estender a campanha de diferentes marcas a diferentes meios de comunicação.

6. Quais são os limites da publicidade? A senhora aceitaria fazer campanha para um candidato que jamais teria chances de receber o seu voto?

Mary - Eu não aceitaria fazer campanha de algo que fosse prejudicial à saúde ou de uma pessoa desonesta.

7. Como a senhora responderia àquelas pessoas que apontam publicidade como profissão construída sobre as fraquezas humanas, sem contudo alegar uma questão de liberdade de escolha?

Mary - Publicidade é uma profissão que usa uma tremenda quantidade de pessoas criativas, escritores e diretores de arte que, de outra forma, talvez não pudessem agüentar a si próprios com seus respectivos talentos. A publicidade dá ao consumidor a escolha do produto ou do serviço que prefere.

8. A senhora é casada, tem filhos, seus hobbies?

Mary - Sou solteira, sem crianças e adoro montaria e fazer snowboard no inverno. Gosto de ler literatura inglesa do século XIX, literatura contemporânea e os novos escritores norte-americanos.

9. Qual é o país com a principal máquina de publicidade do mundo?

Mary - Depois dos Estados Unidos, a Inglaterra continua fazendo a melhor publicidade televisiva. Certamente os trabalhos de print-poster do Brasil e da Argentina estão entre os melhores do mundo. Cingapura também tem uma excelente tradição de publicidade impressa.

 

              
 Esq. p/ Dir. - Washington Olivetto, Mary Warlick, Enrique Lipszyc  Título: Nun
Bronze na Categoria Print/Product - Cosmetics/Perfumes
Agência: VegaOlmosPonce/APL, Buenos Aires
Cliente: Axe
 Título: Ashtray
Ouro na Categoria Print/ Campaign - National Campaign
Agência: Abbott Mead Vickers BBDO, London
Cliente: The Health Education Authority - Anti-Smoking Campaign

Silce Bloise

Por: Mariana Sayad

Diretora de Comunicação na América Latina da Ericsson

“O equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal é muito difícil de se conseguir e é uma coisa que todos, principalmente, a mulher está sempre buscando.”

Silce Bloise é a Diretora de Comunicação na América Latina da Ericsson. Ela fala sobre a nova revolução que está para surgir, em termos de telecomunicações – que ela entende bem - , a internet móvel.

WM - Qual a sua formação?

Jornalista, me formei nos Estados Unidos, na Universidade do Arizona. Na verdade, é a Arizona State University.

WM - Por que você escolheu a área de telecomunicações?

Na verdade, foi a área de telecomunicações quem me escolheu. Como jornalista e como executiva, nessa área de comunicação. O que me atraiu para essa área foi a Ericsson. Estava morando em Miami, quando me ligaram da Ericsson. No principio, o que me interessou foi a empresa pela trajetória e pela importância na América Latina. Depois, comecei a me interessar pelo o que a Ericsson está fazendo hoje, a área de internet móvel e acho que será a próxima geração de tecnologia. Hoje, quem trabalha em telecomunicações fica totalmente exposto ao que existe de última tecnologia. Aqui ficamos sabendo o que vai acontecer daqui cinco a dez anos. Hoje em dia, apesar de dizer que telecomunicações me escolheu a principio, digo que é uma escolha. Porque, realmente, é um campo muito interessante em que se está sempre aprendendo.

WM - Sendo mulher, você sofreu algum tipo de discriminação ao longo da trajetória?

Absolutamente não. Porque a vantagem de se trabalhar para uma empresa sueca é que a Suécia é um país que tem muita igualdade entre os sexos. A mulher é muito respeitada e essa cultura é transferia pelos países onde a Ericsson opera. Tenho total segurança, me sinto bem, como mulher, trabalhando na Ericsson e em telecomunicações.

WM - Tem algum hobby?

Leio bastante, tento estar atualizada. Mas, leio qualquer coisa. Gosto muito de música brasileira e de bossa nova, escuto bastante. Gosto de ir ao teatro e ao cinema. Mas, não tenho nenhum hobby específico.

WM - Você é casada? Tem Filhos?

Sou divorciada e não tenho filhos.

WM - Sua carreira profissional atrapalha sua vida pessoal?

O equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal é muito difícil de se conseguir e é uma coisa que todos e, principalmente, a mulher está sempre buscando. Vivo com o meu namorado, ele também tem uma função internacional. Tentamos, na medida do possível, unir o útil ao agradável. Por coincidência, ele também cuida da América Latina, então, tentamos casar algumas viagens para podermos nos encontrar. Certamente, é muito difícil atingir o equilíbrio total, mas existem fases da vida em que você se dedica mais ao trabalho e outras a família. Acho que fazer tudo ao mesmo tempo é difícil. Mas, por outro lado, acho que a mulher não deve ficar sonhando com uma coisa que não aconteceu. Ela deve assumir que hoje o trabalho é algo  importante na sua vida, é uma parte muito interessante e que se bem administrado pode ser interessante para o relacionamento e para a família. Por isso, prefiro olhar de uma forma positiva e não negativa.

WM - Qual o espaço da espiritualidade na sua vida?

Acredito em Deus. Como viajo muito, muitas vezes, sinto que preciso da presença Dele. Faço oração, peço ajuda e peço que Deus cuide de mim quando estou viajando. Então, tenho uma ligação forte com Ele e não com nenhuma religião.

WM - Quais são as suas principais tarefas na Ericsson?

Sou diretora de comunicação coorporativa para a América Latina que implica em comunicação interna e externa e comunicação com analistas, investidos financeiros e etc. Hoje, a missão principal de alguém na minha função, em termos gerais, é conseguir unir a comunicação interna com a externa, fazer com que tudo que é comunicado sobre a Ericsson seja consistente na América Latina. No dia-a-dia, meu trabalho tem muito a ver com o desenvolvimento de talentos, treinamento de gerentes ou diretores de comunicação em cada país. A tropicalização da estratégia global para a América Latina, trabalho muito com cada país para definirem qual será a sua estratégia.

WM - Para você, a internet está melhorando a qualidade de vida das pessoas ou não?  

A internet melhorou muito e vai melhorar muito mais a vida das pessoas, quando chegar a internet de banda larga e a móvel. Hoje, temos muito mais acesso a informação do que antes. O principal é saber desligar, porque quem liga somos nós. Absolutamente, a internet mudou, foi uma revolução e que vai aumentar muito mais, com a internet móvel. Vai facilitar muito a nossa vida. Por exemplo, viajo, praticamente, toda semana e quando chego no aeroporto de Cumbica vou poder pegar meu telefone, me conectar e ver o que tem dentro da minha geladeira. No caminho do aeroporto, ligo para o Pão de Açúcar através da internet e faço os pedidos. Quando chegar em casa, as compras já terão sido entregues. Então, isso para mim é uma melhora de vida. Agora, o mais importante é saber o momento de se desconectar, pois ela só atrapalha quando não conseguimos nos desligar. Esse é o desafio de todos, como usar a tecnologia para o benefício de cada um.

WM - O que mudou nas telecomunicações com a internet fixa?

Internamente, mudou o jeito de trabalhar, porquê ficou tudo rápido. O jeito de trabalhar com o cliente está mudando, o tal do e-business, todos os processos de venda e comunicação de vendas estão sendo feitos com a internet. Externamente, a chegada da internet foi o primeiro passo. Agora, com a chegada da telefonia móvel, acontece a convergência das duas. Acreditamos que isso será um impacto muito maior. Para se ter uma idéia, hoje, a penetração na América Latina de internet é de 5% de usuários. Mas, 14% da população tem celular. Isso significa que potencialmente a maioria das pessoas da América Latina terão acesso a internet, pela primeira vez, por um telefone celular. Por isso, acreditamos que a internet móvel terá muito mais impacto para telecomunicações e para o mundo em geral. A Ericsson estima que em 2005 haverão mais de 153 milhões de usuários de telefonia móvel e mais de 75 milhões de usuários de internet móvel. Então, isso é uma mudança em tudo. Por exemplo, com a internet, as empresas tiveram que se mobilizar para cada um ter seu site, com a internet móvel é muito mais, porque terão serviços que hoje não são possíveis.

WM - Na sua opinião, o que é necessário para acabar com a exclusão digital?

A internet móvel tem um grande potencial de minimizar esse problema entre os que têm acesso e os que não têm acesso à informação. Obviamente que isso, principalmente, na América Latina e nos países menos desenvolvidos, vai demorar um certo tempo. Mas, a internet móvel vai contribuir muito para que isso seja resolvido. No fim de 2000, há estimativas que se vendeu exatamente o dobro de celulares do que de computadores. Então, a possibilidade de um usuário ter acesso a internet com um celular é muito maior.

WM - Você se sente realizada profissionalmente?

Absolutamente, me sinto muito realizada. Como mulher e como brasileira em ter uma função internacional numa empresa como Ericsson, dá muita realização pessoal.

WM - Quais são os pré-requisitos para quem quer entrar na carreira de telecomunicações? Como a sua, por exemplo?

A carreira de telecomunicações é muito ampla, na minha área de comunicação o primeiro pré-requisito é ter uma faculdade de jornalismo, uma boa faculdade de preferência. É imprescindível falar inglês e, absolutamente, perfeito. Ter uma visão global do mundo, que é uma coisa, às vezes, mais difícil do que parece. Hoje, existem dez operadores de telefonia celular que tem a maioria do mercado mundial e estão em todo o mundo. Outra coisa, querer trabalhar muitas horas e, também, se interessar pelo uso de tecnologias.

WM - Alguma personalidade, brasileira ou não, que você admira?

Admiro muito a Carly Fiorina, da Hewlett Packard, ela foi presidente da Lucent. Para mim, é uma das mulheres mais brilhantes do mundo. Há uns dois anos atrás, foi considerada uma das mulheres mais poderosas pela revista Fortune. Então, a Carly Fiorina é uma pessoa quem admiro, pelo ponto de vista profissional. Agora, como personalidade brasileira, quem mais me interesso é o Caetano Veloso. Acho que ele é uma pessoa bárbara, um brasileiro incrível e que tem uma visão global impressionante.

WM - Gostaria de deixar algum recado final para nossas internautas?

Gostaria de dizer, que depois de morar dez anos nos Estados Unidos, acho que a mulher brasileira ocupou um lugar muito interessante na sociedade, especialmente, no mundo executivo e que continuem batalhando para que cada vez mais, ocupem esse espaço, com inteligência, sem perder a feminilidade própria da brasileira e que possamos, realmente, conquistar cargos mais altos. A mulher brasileira executiva é profissional e, ao mesmo tempo, mantêm a feminilidade.

Márcia Camargo

Por: Mariana Sayad

Diretora Comercial da Kopenhagen

Ultrapassando os obstáculos 

Uma das épocas mais gostosas do ano está chegando, a Páscoa. Para quem está de regime, provavelmente, passará por um grande desafio. Aliás, os desafios são a especialidade da Márcia Camargo, Diretora Comercial da Kopenhagen, mas não para emagrecer e, sim, para vencer na vida que nunca foi moleza.

Depois de ultrapassar muitos obstáculos, Márcia fala da sua trajetória profissional e da páscoa.

WM - Qual a sua formação?

Márcia - Sou advogada, jornalista, historiadora da arte e administradora de empresas.

WM - O que a senhora fazia antes de trabalhar com chocolate?

Márcia - Era gerente de marketing de uma empresa multinacional sueca do ramo de embalagens

WM - Por que a senhora escolheu trabalhar com chocolates?

Márcia - Primeiro, pela perspectiva profissional de uma responsabilidade muito maior. Hoje em dia, sou responsável por toda a estratégia da empresa e antes eu era apenas uma peça de um grupo. Então, assumir novos desafios foi o maior ponto. E, também, pelo glamour da marca Kopenhagen, que é uma coisa que atrai muito qualquer profissional como eu.

WM - A Kopenhagen pertence a algum grupo multinacional?

Márcia - Não, a Kopenhagen é uma empresa inteiramente brasileira. Passou há quatro anos para um outro grupo nacional, que não o fundador da empresa.

WM - O que é necessário para trabalhar num ramo tão disputado como esse?

Márcia - A primeira coisa é o conhecimento profundo do consumidor, por se tratar de um mercado de glamour, sabor e, portanto, modal você precisa ter uma agilidade muito grande na inovação das coisas. Precisa ter uma sensibilidade enorme para perceber as reais do consumidor e ter um tino de associação entre produto, moda e novidade bastante aguçado. Porque chocolate de grife, como é o da Kopenhagen, não apenas dá sabor, mas status também.

WM - Então, a senhora acredita que o sucesso da Kopenhagen venha desse lado grife do chocolate?

Márcia - Com certeza. É um chocolate que diferencia o consumidor do meio dos consumidores. Então, você não está consumindo um chocolate e, sim, uma grife.

WM - A senhora está há quanto tempo na Kopenhagen?

Márcia - Um ano e meio

WM - A senhora é casada? Tem filhos?

Márcia - Sou solteira e tenho um filho de 17 anos.

WM - Seu filho fica esperando a senhora trazer chocolate para casa?

Márcia - Todos os dias, ele e os colegas da faculdade dele.

WM - Quais são as expectativas para a páscoa deste ano?

Márcia - As melhores possíveis. A produção está bastante superior do que a do ano passado. Estamos com lançamentos focado ao público infantil, que é a primeira vez na história da Kopenhagen, com os ovos de chumbinho e de Nhá Benta. A primeira semana de venda de páscoa, já teve uma procura grande por essas novidades. Estamos com a esperança de ter um resultado 15% superior ao ano passado, ou mais.

WM - Por que a Kopenhagen é mais voltada aos adultos que para o público infantil?

Márcia - Não é que ela é mais voltada aos adultos. A Kopenhagen pelo preço do produto ser muito mais caro do que os outros, ela acaba canalizando o seu consumidor para quem está mais estabelecido financeiramente. A gente, portanto, acaba atuando nessa faixa. Mas nesse ano, até pelo lançamento do sorvete, o público mais jovem tem entrado muito mais na loja da Kopenhagen e conhecido os produtos.

WM - Os chocolates dietéticos da Kopenhagen são muito procurados?

Márcia - São bastante procurados. O nosso chocolate é aprovado pela Associação dos Diabéticos de São Paulo, portanto, existe um grupo bastante assíduo de consumidores. E, também, ele é bastante saboroso, talvez por isso também, ele tenha uma aceitação muito grande.

WM - A campanha da raspadinha que foi feita no verão, teve o resultado esperado?

Márcia - Ela teve bastante resultado. Conseguimos atingir os objetivos da empresa inteiramente, que era manter a loja, num período que normalmente tem baixa venda - o verão intenso - com clientes por essa expectativa de todos de estarem recebendo um ano de chocolates de graça. Conseguimos também, distribuir brindes para todos os clientes que gastaram mais de R$ 20,00. Percebemos que todos que gostam de chocolate, gostavam de ganhar ainda mais chocolate.

WM - Em toda a sua trajetória profissional, a senhora sentiu algum tipo de preconceito por ser mulher?

Márcia - Com certeza. No meu caso em especifico, sofri todos os tipos de preconceitos imagináveis por ter sido mãe solteira, com quase vinte anos que é uma coisa complicada. Profissionalmente, há vinte anos atrás, quando comecei a trabalhar, existia um preconceito muito grande contra a mulher executiva. Mas creio que isso está muito mais diluído hoje, na minha equipe, por exemplo, tem apenas um homem. A mulher, hoje em dia, está achando seu caminho profissional muito mais facilmente. Aquela fase dramática dos anos 80, tende ao esquecimento, graças a Deus.

WM - Atualmente, está lendo algum livro?

Márcia - Estou, "A festa do bode" do Mario Vargas Llosa (Editora Mandarim)

WM - Quem a senhora admira?

Márcia - Parece piegas, mas uma pessoa que admiro e que é meu exemplo de vida é a minha mãe, que é uma senhora de 80 anos que trabalha até hoje e dirige o seu próprio carro, indo e voltando. Ela tem um dinamismo absurdo. No mundo em geral, tendo a admirar todos que conseguem viver da arte, até porque estou um pouco envolvida nesse mercado e acho louvável que pessoas consigam sobreviver de literatura, de pintura e escultura. Sou grande admiradora de Franz Kafka, que é um grande escritor que penou muito e conseguiu brilhante sucesso, mesmo sendo depois de morto. É isso, admiro o ser humano com um todo, não um em especial. Pela coragem e pelo não desânimo jamais, são esse que tendo a admirar.

WM - Algum recado final para nossas internautas?

Márcia - Costumo seguir a espécie de um lema, já há bastante tempo: que é ultrapassar obstáculos, tendo uma pedra no meio do caminho, você pode desviar dela, ou pode cair nela ou subir para ver um novo horizonte lá na frente. Então, qualquer pedra no seu caminho não desvie dela, nem caia e, sim, suba e encontre um caminho lá na frente que você vai alcançar.

 

Rita Madeira

Por: Mariana Sayad

Gerente de Produtos Revlon
Rita Madeira: possuidora de uma energia inesgotável

Rita Madeira é quem gerencia as variáveis de marketing, analisa as cores, produtos e pesquisa as tendências internacionais, entre outras funções na Revlon Cosméticos. Quem acha que ela se acomodou a tal situação, se engana. Além disso, está cursando MBA em Marketing, é casada e tem dois filhos. Acompanhe a entrevista com essa mulher fantástica.

 “...novos desafios são sempre encantadores”

“Não tenho grandes mitos ... Prefiro me dedicar a observar pessoas comuns. Pessoas que estarão ou não no futuro em evidência, mas que com seus pequenos gestos, nos deixam grandes mensagens”

WM - Qual a sua formação?

Rita Madeira – Sou formada em Química Industrial pela Universidade Mackenzie, pós graduada pela ESPM em Marketing e atualmente cursando MBA em Marketing na Fundação Getúlio Vargas.

WM - Sendo mulher, você sofreu algum tipo de discriminação ao longo da
trajetória?

Rita - Sim, no início de minha carreira, quando estagiava na área de Química, não fui
efetivada numa vaga, porque diziam ser necessário um homem para executar as
funções requeridas pelo cargo. Fiquei muito chateada, pois sabia que podia
desempenhar da mesma forma a função. Meses depois, acredito ter provado minha competência, tanto que fui efetivada nesta mesma empresa, numa função naquela época, exclusivamente masculina.

WM - Tem algum hobby?

Rita - Sim, jogo RPG com um grupo de amigos há mais ou menos 10 anos. Role Playing Games é uma espécie de jogo interativo em que um grupo de pessoas é conduzido por um mestre de aventuras e decide qual caminho tomará em vários momentos da aventura. No nosso caso, iniciamos com Tagmar (um conhecido RPG que foi criado no Brasil), porém como não haviam muitas aventuras prontas disponíveis, nos aventuramos a criar aventuras próprias tomando como base em alguns livros de Tolkien.
O  jogo trabalha com estímulos muito bons para que as pessoas aprendam a
imaginar cenários, situações, soluções de problemas e decisões rápidas. Sinto
que ele me ajudou no sentido de amadurecer meu raciocínio abstrato e rapidez de decisão.

WM - Você é casada? Tem Filhos?

Rita - Sim, estou casada há quase dez anos tenho dois filhos:  um menino de 6 anos e
uma menina de 2.

WM - Sua carreira profissional atrapalha sua vida pessoal?

Rita - Acho que hoje já sei lidar melhor com isso. Mas é lógico que a mulher tem que
fazer seus sacrifícios e escolhas. A fase mais difícil é quando você se vê mãe... É muito difícil ser cobrada como mãe e esposa, ao mesmo tempo, em que se passa pela pressão diária do trabalho. Neste ponto, o marido é a pessoa fundamental. Apesar de ser uma grande mudança para eles também, não foram invadidos por uma inundação de hormônios, como nós mulheres, e podem com paciência e carinho, nos ajudar a retomar o equilíbrio da vida. Na vida atual, se engana a mulher que acha que pode abraçar tudo. Faz parte do casal ou até da família atual dividir responsabilidades. Neste ponto, admiro muito meu marido que sempre caminha ao meu lado em tudo.
Acho importante a mulher pensar a longo prazo, pois existe a tendência da geração passada em se anular pela família e depois quando os filhos estão criados, cobrar toda essa dedicação de uma forma injusta ou, simplesmente, achar que a vida acabou quando os filhos se vão. É lógico que meu marido e meus filhos são mais importantes que tudo na minha vida, meu porto seguro. Mas não é incoerência pensar que tenho à parte deles meus sonhos e realizações, assim como eles terão as deles. Eles têm a certeza do que significam para mim e, por isso, participam de cada pequena vitória, opinando e me dando força, assim como eu a eles quando me contam algo.

WM - Qual o espaço da espiritualidade na sua vida?

Rita - Tudo na vida é espiritual! Todo momento é uma dádiva divina e toda hora é uma chance para agradecer, mas na minha opinião este agradecimento não precisa estar na forma de oração, mas sim com atos. A forma de encarar a vida e as pessoas que convivem conosco, ver sempre o lado bom, ter muito amor no coração e alegria na cabeça, dar bastante risada e ouvir muito, mas muito mesmo a intuição. O universo está sempre conspirando secretamente a nosso favor, somos nós que por vezes colocamos as barreiras.

WM - Quais são as suas principais tarefas na Revlon?

Rita - Gerencio as variáveis de marketing considerando linha de produtos,  preço, exposição, distribuição e propaganda. Além disso, as operações de importação de produtos, projeções de venda, demanda x atendimento, desenvolvimento de novos projetos, etc.. A parte mais gostosa fica por conta das análises de cores e produtos, pesquisa de tendências internacionais e análise do comportamento do consumidor.

WM - Algum livro de cabeceira?

Rita - Inteligência Emocional.


WM - O que uma mulher moderna precisa para manter sua pele sempre saudável?

Rita - Uma boa alimentação, lembrar sempre de retirar a maquiagem antes de dormir, além dos cuidados básicos de limpeza, tonificação,  hidratação da pele e, principalmente, estar de bem consigo mesma e com a vida.

WM - Como a alimentação influencia na saúde da pele?

Rita - Infelizmente tudo o que é muito gostoso, invariavelmente faz mal, portanto, não
sou tão fanática por dietas a ponto de me esquecer de uma boa sobremesa, ou
chocolate, mas também já vivi um período onde fiquei muito acima do meu peso e sei o que isso traz de mal para nosso ego, humor, enfim para a cabeça. Portanto, procuro ter refeições balanceadas sempre que possível, mas não passo muita vontade caso veja uma boa torta holandesa ou algo de gênero.

WM - Qual é a diferença de uma maquiagem entre as mulheres com tons de pele
clara e as mulheres negras?

Rita - Não é somente a cor da pele que define os tons com os quais ela deverá se
maquiar. Existem tons que são mais harmoniosos para uma mulher negra do que para outra também negra, independente da cor da pele. A mulher precisa ser analisada como um todo.  Cabelos, cor dos olhos e matiz da pele formam um conjunto que definirá qual família de tonalidades conseguirá destacar mais sua beleza. Por exemplo, podemos ter negras que fiquem bem com os tons cobres, caso sua pele tenda a marrom, seus cabelos sejam de cor chocolate e seus olhos sejam mel, assim como podemos ter outra negra em que a beleza se destacará muito mais com nuances de malvas, porque sua pele tende mais ao acinzentado, seus olhos e cabelos ao preto. E isso também acontece exatamente igual com  as peles mais claras, mulheres que combinem mais com tons terrosos ou quentes e outras que combinem mais com tons frios. Existem especialistas no assunto, inclusive ditando isso não somente para maquiagem, mas para moda de um modo geral.

WM - Quais são os pré-requisitos para uma mulher estar sempre bonita?

Rita - Existem os cuidados básicos de higiene e limpeza que são imprescindíveis. Uma mulher precisa estar sempre asseada independentemente de sua ocupação. Isto é sempre visto como organização e cuidado com o que faz. Unhas bem feitas, maquiagem bem acabada  e cabelos bem tratados, trazem por si só uma aparência de sofisticação, inerente a beleza e, ainda 'de quebra', fazem com que a mulher seja sempre notada.
Falando especificamente de maquiagem, sua função é destacar os pontos fortes de cada mulher. Ela não pode aparecer mais que a mulher, o ideal é que ela seja harmoniosa, as cores devem ser cuidadosamente escolhidas considerando quais tons destacam mais o da pele e, também, com a roupa que será utilizada. O tom de blush, por exemplo, acompanha o batom, que acompanha as unhas. Isto é, se o batom for marrom, o blush nunca deverá ser rosado e, sim, em tons quentes, terrosos.
Enfim, o que mais vale é o bom senso, o bom gosto. E na dúvida, sempre é melhor menos do que mais. O resto fica por conta do estilo pessoal de cada uma, mas nada, nem uma roupa fashion substitui os cuidados acima. Como uma pessoa de marketing penso em tudo como um possível produto e sei que o consumidor sempre está atento aos pequenos detalhes.

WM - Qual tipo de produto é mais indicado para retirar a maquiagem?

Rita - O ideal é uma loção suave e com ingredientes naturais, uso Revlon Natural
Honey Loção Facial de limpeza
, ela é bem leve e fácil de ser retirada e não
resseca a pele.  É sumamente necessário que se retire bem a maquiagem antes de dormir e que também se hidrate a pele, para que ela possa descansar antes da próxima jornada de trabalho, para isso, uso a Revlon Natural Honey Loção Facial Hidratante que também é bem leve e suave.

WM - Você se sente realizada profissionalmente?

Rita - Não ainda e espero que não me sinta tão cedo. Acho que quando uma pessoa está realizada, ela naturalmente, tende a acomodar-se e não quero nem de longe pensar nisso, mesmo porque isso não pode existir na minha profissão. Quem se acomoda em marketing é invariavelmente engolido pela concorrência. O que posso dizer é que gosto muito do que faço, adoro marketing e adoro o mundo dos cosméticos. Sou detalhista por natureza, por isso, analiso todos os fatores de cada um dos produtos da linha, mas acho que também consigo perseguir meus objetivos macro  e, além disso, como diria Pablo Picasso "sempre faço o que não consigo para aprender o que não sei", afinal, novos desafios são sempre encantadores.

WM - Alguma personalidade, brasileira ou não, que você admira?

Rita - Não tenho grandes mitos, acho que algumas personalidades são geniais em alguns pontos, mas não por inteiro. Estão muitos distantes para opinarmos sobre sua vida, ou tê-las como um exemplo a ser seguido. Prefiro me dedicar a observar pessoas comuns. Pessoas que estarão ou não no futuro em evidência, mas que com seus pequenos gestos, nos deixam grandes mensagens. São elas que estão ali, do nosso lado, nos dando exemplos reais de vida, o tempo todo, basta que estejamos atentos para admirá-las.

WM - Gostaria de deixar algum recado final para nossas internautas?

Rita - Acho que devo falar sobre maquiagem, por conhecer bem o tema e, também, por ser assídua usuária. E falar dos bastidores da criação de produtos que, normalmente, não são mostrados ao consumidor. Hoje em dia, temos uma proliferação no mercado muito grande de marcas e produtos.
Em todos os lugares é possível encontrar algum produto de maquiagem à venda. A consumidora deve ser exigente e cuidadosa com os produtos que vai comprar. São produtos que ela utilizará por várias horas  e que estarão em contato direto com sua pele. Portanto, ela deverá eleger produtos de marcas de sua confiança e que tenham um nome a zelar. Hoje, mais que nunca, as boas empresas do ramo estão muito preocupadas em fornecer produtos que não somente embelezem, mas que de certa forma cuidem de sua consumidora. A maquiagem hoje não se resume somente a cor bonita, mas em toda uma grande estrutura por trás que  é responsável pela elaboração de fórmulas, testes químicos, de performance e microbiológicos a nível mundial, para garantir uma excelente qualidade e, dessa forma, encantar ou surpreender a consumidora com produtos de tecnologia reconhecida.  Isto custa muito e, por isso, somente grandes empresas podem oferecê-lo.

Por: Mariana Sayad

Mais uma conquista de um espaço 100% masculino

“...acho que ficamos mais eficientes no trabalho do que em casa.”

“Não pode ter medo de nada, nem de desafios, nem de trabalho e nem de novidades. As mulheres têm que ser valentes, pois só isso as levará a algum lugar nos dias de hoje.”

Já imaginaram uma concessionária composta por uma equipe 100% feminina. Exatamente, inclusive as mecânicas, eletricistas, recepcionistas e tudo mais, até a diretora? Isso não é apenas um mero projeto futuro, na concessionária Etoile da Citroën só tem mulheres trabalhando.

Confira os detalhes dessa novidade que funciona desde do dia 24/10/2000, na entrevista com a diretora da Etoile, Vera Lucia Camargo Costa Siqueira.

Depois de ler essa entrevista, ninguém mais dirá que mulher só serve para dirigir o tanque.

WM - Qual a sua formação e quando começou a trabalhar com carros?

Vera Lucia: Sou formada em química, não tem nada a haver com administração. Mas trabalhei no ramo de autopeças durante 23 anos com acessórios para ônibus e caminhões. Há quatro anos, estou na Citroën, entrei como supervisora, passei para gerente comercial e, agora, sou diretora da concessionária.

WM - Como é que surgiu essa opção de trabalhar com carros?

Vera Lucia: Na verdade, já tinha 23 anos de experiência com acessórios de ônibus e caminhão, mas nunca passou pela minha cabeça trabalhar com carros. Então, surgiu a oportunidade de trabalhar na Citroën como supervisora de vendas, embora não tivesse experiência com carros, tinha muita com o atendimento ao público, comando de loja e de treinamento de equipes, pois sempre fiz isso. Depois de aprender mais sobre os carros e sobre a comercialização, comecei a subir de cargo até chegar a ser diretora.

WM - Como surgiu a idéia de montar uma concessionária só de mulheres?

Vera Lucia: Essa idéia foi da Isaira Correia, que é superintendente da Citroën em São Paulo, ela já tinha observado que as mulheres estavam se destacando dentro da empresa, por exemplo, as melhores vendedoras da rede eram as mulheres. A Citroën é uma empresa que oferece muitas oportunidades ao trabalho feminino. Então, começou a colocar mulheres na recepção técnica e observaram os clientes. Nas pesquisas, os clientes sempre elogiavam a recepção técnica das mulheres, então a idéia da Isaira foi reunir todo o talento feminino em uma concessionária só. No ano de 2000, a idéia foi amadurecida e colocada em prática. Na hora da execução, em especial na equipe técnica, houve necessidade de um treinamento do produto da linha Citroën que durou quase seis meses. Por isso, a admissão do pessoal começou em meados do mês de abril do ano passado, mas a concessionária só entrou em funcionamento no dia 24 de outubro.

WM - Você sente algum tipo de preconceito por ser mulher?

Vera Lucia: Não. Para todas nós foi uma experiência nova, inclusive para mim que, apesar de 27 anos de experiência em comércio, nunca tive a oportunidade de trabalhar com uma equipe 100% feminina. A expectativa era grande e não sabíamos como iria ser. Depois de 90 dias, fizemos uma pesquisa e constatamos que a captação de clientes foi a mesma do que das outras concessionárias da Citroën – 55% de homens e 45% de mulheres – isso significa que não sofremos nenhum tipo de preconceito – nem fomos mais procuradas pelas feministas e nem mais pelos homens devido a curiosidade. A loja funciona exatamente como funciona as outras da rede Citroën.

WM - Qual é a sua rotina de trabalho?

Vera Lucia: É uma rotina bastante puxada, porque a concessionária funciona das 8 até às 20 horas de segunda a segunda-feira e a oficina de segunda a sexta-feira. Mesmo que eu não esteja fisicamente na loja, fico monitorando tudo o que acontece pelo celular. È muito interessante, principalmente, por esse desafio, de tocar uma concessionária só com mulheres. Além disso, onde a concessionária se localiza não tinha nenhuma outra da Citroën, então temos o desafio de manter os clientes e de divulgar a loja na região.

WM - Existe algum projeto de outras concessionárias só de mulheres?

Vera Lucia: Na Citroën, só de mulheres, não existe nenhum projeto. Mas está abrindo vagas, em outras concessionárias, à equipe mista.

WM - Quais foram as principais dificuldades enfrentadas até agora?

Vera Lucia: O preconceito, com o nosso público, nunca tivemos. O pessoal foi muito receptivo, o cliente acha interessante vê as meninas mexendo no carro. A dificuldade que podemos ter, isso ainda não aconteceu, é se precisarmos repor alguma pessoa da equipe porque existem poucas mulheres no mercado. Apesar de que já temos recebido currículo de outras moças que estão estudando no SENAI e que têm vontade de vir trabalhar conosco. Mas mecânicas experientes são poucas e acho que estão todas concentradas aqui na Etoile.

WM - Como é o relacionamento entre a equipe?

Vera Lucia: Como estamos todas envolvidas no mesmo projeto, temos muitas coisas em comum, ficamos muito unidas, temos uma motivação muito grande e um perfil empreendedor muito bem definido, então o relacionamento é muito bom. Aquele folclore de que onde tem muita mulher só pode sair confusão e fofoca, dentro da Etoile, não existe. Primeiro, porque buscamos pessoas maduras, não só de idade, mas profissionalmente também.

 Uma coisa interessante que acontece, é quando vem algum jornal ou revista para tirar foto, as meninas que trabalham aqui vão passar um batonzinho para poder sair na foto bonita. Elas são vaidosas apesar da roupa de mecânicas querem sempre aparecer arrumadinhas.

WM - A oficina fica mais arrumada do que as outras?

Vera Lucia: As oficinas da Citroën têm um padrão, geralmente, são muito organizadas e limpas. Mas a Etoile é mais ainda, até os carrinhos de ferramentas são organizados. As mecânicas não deixam nada jogado. Isso é uma coisa importante, porque posso receber qualquer pessoa a qualquer hora sem nenhum constrangimento.

WM - Na sua opinião, as mulheres são mais atenciosas e sensíveis com os carros do que os homens?

Vera Lucia: No atendimento, por exemplo, a mulher é mais atenciosa, mais delicada e mais paciente para ouvir o cliente em alguma queixa ou quando vai descrever algum defeito do carro. Já na parte operacional, a gente percebe que a mulher é mais detalhista. Ela faz com mais atenção, isso são  características da própria mulher, o senso de organização e de ser detalhista. Às vezes, elas vêm coisas no carro que o cliente não percebeu ainda, além de ter o ouvido mais aguçado.

WM - Quantas mulheres trabalham na concessionária?

Vera Lucia: 28 mulheres no total.

WM - O que necessário para se destacar em uma área tão masculina, como a de mecânica?

Vera Lucia: Todos nós, precisamos ser duplamente mais competentes do que os homens. Porque a cobrança é maior, precisamos ser muito profissional e ser muito séria. Infelizmente, esse é o preço para a mulher se destacar profissionalmente. Na Citroën, as coisas são diferentes porque o perfil da empresa é distinto, existe muitas mulheres em postos-chaves.

WM - Para a senhora, é difícil conciliar a vida profissional com a particular?

Vera Lucia: Já foi mais, tenho só um filho de 17 anos. Quando ele era pequeno era mais complicado, porque tinham as famosas reuniões da escola e nem sempre eu podia participar, precisava administrar esse lado. Hoje em dia, é um pouco mais fácil. Mesmo assim, é difícil a jornada é grande. De vez em quando, escapa alguma coisa em casa, mas tudo bem, o que não pode escapar é na parte profissional, pois em casa a gente acaba relevando e passando por cima de alguma coisa. No final, acho que ficamos mais eficientes no trabalho do que em casa. O público da minha casa não é tão exigente, mas aqui na concessionária o meu público é extremamente exigente.

WM - A senhora é casada?

Vera Lucia: Sou casada há 23 anos.

WM - Como o seu marido e o seu filho encaram essa sua trajetória profissional?

Vera Lucia: Na verdade, já estão acostumados com essa correria. Na outra empresa, eu era gerente comercial. Conheci o meu marido no trabalho, então ele sempre compartilhou comigo e o meu filho foi se acostumando. Voltei a trabalhar logo depois da licença maternidade e sempre expliquei muito a meu filho como a minha profissão era importante para mim e para todos nós. Agora, ele está orgulhoso de mim com esse desafio.

WM - As clientes femininas têm algum preconceito em lidar com a concessionária de mulheres?

Vera Lucia: Antes de a Citroën abrir a Etoile, foi realizada uma pesquisa com os clientes sobre como seria abrir uma concessionária 100% feminina. A grande maioria foi favorável, uma minoria não e um grupo foi refratário. Dentre os números de contrários a idéia, a maioria eram mulheres. Mas no dia-a-dia não senti nada. As clientes vêm, conversam com as mecânicas e se sentem mais à vontade em com as mulheres acho que é pela linguagem que usamos. Parece que é mais apropriado para a mulher ser atendida por mulheres, mas não vem mais mulher por causa disso. Mas, tenho certeza, que as mulheres que ainda não vieram aqui quando vierem virarão clientes. Porque todas ficam satisfeitas e se sentem bem.

WM - Tem algum recado final para nossas leitoras?

Vera Lucia: Acho que a Citroën inovou, tenho certeza que depois desse passo que a Citroën deu a favor das mulheres, muitas outras concessionárias e outros segmentos vão abrir mais campos para a mulher. Acho muito positivo isso. Agora, as mulheres precisam se preparar, investir na sua formação profissional, acreditar nos projetos que a empresa propõe a elas e precisam abraçá-los. Não pode ter medo de nada, nem de desafios, nem de trabalho e nem de novidades. As mulheres têm que ser valentes, pois só isso as levará a algum lugar nos dias de hoje.

A concessionária Etoile fica na Av. Interlagos, 500 – Interlagos – São Paulo. O telefone é (11) 5524-8983 ou 5524-9022.

Valentina Caran

Empresária

Como muita determinação pode levar ao sucesso

Por: Domitila Farina

Ela nasceu no interior de São Paulo, em Monte Mor. Apesar de gostar de estudar, logo cedo, teve de trocar a escola pelo trabalho na lavoura. Mas isso  foi apenas um interregno na vida de Valentina Caran.  Aos 21 anos, veio para a capital paulista e começou a sua bem sucedida trajetória  profissional. Cerca de  vinte anos depois, seu nome virou sinônimo de bons negócios no setor imbobiliário com a empresa indo de vento em popa.

Objetiva,Valentina Caran diz que venceu graças a muito trabalho, ao seu profissionalismo e, acima de tudo, ouvindo e respeitando a  sua intuição feminina.

Mulher nenhuma é escrava de nada. O mais importante do visual é ela estar bem consigo mesma. Nada substitui uma personalidade forte, no vestir, na maneira de ser e de agir.”  - Valentina Caran 

1.Antes de se tornar empresária do setor imobiliário, a senhora trabalhava na agricultura. O que a  senhora fazia e como se deu essa mudança ?

R. Trabalhei na agricultura até os 21 anos de idade, na colheita de tomates. Levava uma vida bem simples, com muitas dificuldades. Até que um dia, com o apoio de meu pai, vim para São Paulo. Comecei vendendo coleções de livros para a Editora Abril, onde aprendi muito. Três anos depois, seguindo o conselho de um amigo, fui para o mercado imobiliário. Após dois anos, e muito trabalho, aluguei uma sala na Avenida Paulista e abri minha própria imobiliária. O começo foi difícil, mas daí em diante não parei mais.

2. Qual a sua naturalidade, formação acadêmica e idade?

R. Nasci em Monte Mor, no interior de São Paulo. Apesar de gostar muito de estudar, logo tive que trocar a escola pelo trabalho na roça. Portanto, eu costumo afirmar que freqüentei a Universidade da vida, que considero a maior de todas. Dotada de muita percepção, fui observando, assimilando, aprendendo. Aos poucos, fui me aprimorando, procurando, todos os dias, compensar a falta de estudos. Dessa maneira, fui agregando algo mais à minha personalidade, que hoje, aos 46 anos de idade, é minha marca.

3. Tanto na agricultura quanto no setor imobiliário, a senhora já passou por saia justa do preconceito de gênero, por ser mulher?

R. Não. Na agricultura, o importante é o desempenho da mão de obra. O que interessa ao patrão é a produção, portanto, não há tempo para preconceitos. No ramo imobiliário, quando se tem postura profissional, não importa de que sexo a pessoa é. O que importa é a personalidade.

4.Qual foi o segredo para a sua empresa se tornar uma das maiores do mercado?

R. Transparência, dedicação e muito trabalho.

5. Tem planos para atuar no Mercosul?

R. De imediato não, estou concentrada em meus negócios aqui no Brasil, sempre preocupada no melhor atendimento e na satisfação dos meus clientes. Trata-se de um trabalho muito personalizado, que exige muito a minha presença na direção dos negócios.

6. Sua opinião sobre a globalização e a onda de privatizações registrada no país?

R. Seria muito melhor que o Brasil tivesse menos necessidade de capital estrangeiro. No entanto, devo reconhecer que o capital oriundo das privatizações gera empregos, o que é fundamental para o crescimento de qualquer país.

7. Como anda o mercado imobiliário?  Final de ano é hora de vender ou comprar?

R. No final de ano, o mercado imobiliário sempre tende para desaquecimento. Em decorrência disso, é uma época melhor para quem compra do que para quem vende.

8. Algum plano especial de lazer para a virada do milênio?

R. Uma das minhas grandes características é não planejar. Fico muito envolvida com o trabalho, e  os meus negócios são imprevisíveis, portanto, vou resolver meus planos (para a virada do século) um ou dois dias antes.

9. Como a senhora concilia a correria da vida profissional com a sua vida privada?

R. Sou muito organizada, tenho uma boa equipe em casa. As minhas filhas estudam e têm suas ocupações diárias. Elas têm um grande respeito pelos meus horários, e acredito que o mais importante é o bom relacionamento que mantemos quando estamos juntas.

10. A senhora é casada, tem filhos? 

R. Sou casada e tenho seis filhas.

11.Quais suas preferências para os momentos de lazer? O que a faz relaxar do estresse diário?

R. Estresse não é o meu problema. Ficar com minhas filhas, participando dos papos e das brincadeiras delas, andar a cavalo no meu sítio em Indaiatuba, sempre com as meninas, é o meu maior lazer.

12. Qual o espaço da espiritualidade na vida da empresária Valentina Caran? Cuidados especiais para o corpo e cuca?

R. Sou católica, faço minhas orações. Não tenho nenhum cuidado especial com meu corpo, não faço ginástica, pois não tenho tempo para freqüentar academias. Minha única marca registrada é o batom, que eu adoro. Quanto à cuca, quem cuida  dela para mim é o meu trabalho e minhas filhas.

13. O lado social do Brasil, que anda mal das pernas, tem jeito? E a violência? Como tais problemas devem ser enfrentados?

R. Claro que tem jeito, com um pouco de boa vontade e muito trabalho. A violência só será resolvida através do trabalho, isto é, os infratores da lei deveriam cumprir penas em colônias agrícolas ou fábricas criadas para essa finalidade.

14. Quais seus planos para o próximo ano?

R.  Como já disse antes, eu não sou de fazer planos. Mas, como sou uma eterna esperançosa, quero ver esse país crescer muito. Eu pretendo fazer minha parte,  gerar empregos, continuar meu ritmo de crescimento trabalhando com empenho junto aos meus parceiros e funcionários. Quero fazer minha parte e torcer para que cada um faça a sua.

15. Como mulher bem sucedida profissionalmente, qual o pulo do gato para vencer obstáculos e matar um leão por dia, sem perder a suavidade e a intuição femininas?

R. Não existe pulo do gato. O que se deve fazer é matar dez leões todos os dias. Ninguém é ninguém só com um pulo. O importante é a persistência, a constância e a determinação. A mulher nunca perde a suavidade e a sua intuição é quase tudo, se não for tudo. Temos que  estar sempre atentos a ela.

16.Seu conselho para quem quer entrar para o ramo imobiliário e se dar bem.

R. Tirar o Creci, freqüentar cursos, procurar conhecer a fundo o mercado através de trabalho prático e, principalmente, correr atrás.

17. Para uns, a internet é ótima aliada ao nos fazer ganhar tempo. Para outros ela rouba nosso tempo. Na sua opinião, nossa qualidade de vida melhorou com a rede?

R.  A internet agilizou o mundo dos negócios. A informação é rápida, econômica e muito eficiente. O importante é usar essa ferramenta com sabedoria e não desvirtuar sua utilidade, correndo o risco de se tornar um escravo desse instrumento.

18. Com tanto  sucesso e espaço ganhos, hoje , a mulher já é vista    além de sua aparência ou ela continua escrava do fashion- e- cia.?

R. Mulher nenhuma é escrava de nada. O mais importante do visual é ela estar bem consigo mesma. Nada substitui uma personalidade forte, no vestir, na maneira de ser e de agir.

19. Quem, no Brasil, é digno de sua admiração?

R. Silvio Santos, Antônio Ermínio de Moraes, Mário Covas e outros.

20. Alguma mensagem para nossas internautas?

Senhores internautas: se falarmos em sucesso profissional, repito a minha frase de sempre: “Não existe mercado parado e sim pessoas paradas”. A Intuição é a grande aliada para qualquer profissional. Aprender a lidar com ela, seguir de maneira determinada, olhar sempre para frente ajuda a crescer interiormente. E, principalmente, nunca esquecer de confiar em DEUS.

Ivani Calarezi

 

Por: Paula Valéria

WMulher - Quando você iniciou a empresa e porque essa decisão?

R - Comecei em Junho de 1982. E a decisão de montar o meu próprio negócio é porque eu estava doida para trabalhar pela minha realização pessoal e independência financeira. Eu já era casada, com dois filhos e estava grávida do meu terceiro bebê - a minha filha – e decidi começar. Escolhi doces, porque era uma identificação pessoal.Eu gosto de cozinhar e principalmente doces.

Minha avó e minha mãe já trabalhavam naquela época e era inevitável no meu caso, que eu não seguisse o mesmo caminho delas.

WMulher – Então nos conte da sua relação com a sua mãe e com a sua avó.

R - Minha família sempre foi muito ligada as artes. Era algo bem valorizado lá em casa. Minha avó era modista, minha mãe era pianista. Eu também era pianista nesta época em que morava na minha cidade, Tupã, no interior de São Paulo. Para mim foi uma coisa tão automatizada querer uma carreira, pois você cresce no meio de um universo de mulheres que trabalham e um dia se dá conta de que na sua família algo é diferente das outras. E aí, é claro, você assimila. Quando eu cheguei aqui em São Paulo, e vi esta cidade deste tamanho, eu pensei comigo – aqui eu tenho tudo para fazer!
A partir daí eu dei aulas de música e depois tive o desejo de criar uma confecção de moda infantil, mas não fui adiante.
Quando eu já estava há 11 anos nesta metrópole, pensei em doces porque eu mesma era extremamente gulosa. Na época tinham poucas doceiras e quando eu ia e queria provar de tudo, eles só vendiam o bolo inteiro e não as fatias de cada sabor. Foi aí que eu pensei : “– Vou montar uma lojinha de doces como se fosse uma boutique! Com um outro sistema personalizado, de atendimento ao gosto do cliente.“

Então, o meu marido tinha uns amigos arquitetos e eu pedi para um deles desenvolver uma boutique de doces.

Na época as cores verde e rosa, eram muito ousadas, o padrão de docerias e rotisserie eram muito sóbrios e isto causava um contraste. As pessoas paravam para perguntar o que vendia naquela loja. São flores? Presentes? Roupa infantil? Era muito engraçado e bom.

Minha primeira loja foi construída pelo meu marido que depois fez - e faz até hoje - todas as outras, com o acompanhamento do arquiteto. Ela permanece lá até hoje no mesmo endereço : Rua da Consolação, 2828 , nos Jardins.

Depois crescemos muito a ponto de termos 40 lojas e hoje, o meu marido tornou-se meu sócio; além da minha sócia, a Silvana, que entrou após uns 3 anos do meu comércio estar funcionando.

WMulher – E sobre os seus filhos?

R - Tenho uma filha mais nova de 18 anos, que era o bebê que estava na barriga quando fundei a primeira loja. Ela chama-se Bruna e tem um bolo em homenagem a ela. Este bolo inclusive ganhou um prêmio há 10 anos atrás – “Uma das 50 delícias de São Paulo” da Revista Cláudia.

Também tenho dois filhos homens, um mais velho de 26 anos, o Rafael, que trabalha com a sua própria empresa de comércio exterior e o outro é o Thomáz de 23 anos, que trabalha com seguros.

WMulher – Como você vê o mercado de doces e franquias de alimentação no Brasil ? O que cresceu nestes últimos 18 anos e o que precisa avançar?

R - No início , não tinha muita concorrência no segmento que escolhi, pois ele era muito diferenciado nas receitas e na forma de vender. Para dizer a verdade, São Paulo era muito diferente, tinha apenas um shopping. Cada ponto novo de loja, era um novo bairro a ser conquistado. Cada novo shopping, era um novo ponto no mercado. E quando eu vi, estava com 20 lojas. Depois com 40.

A concorrência inevitavelmente chegou e acho saudável ela existir, pois com isso corremos atrás de manter o nosso lugar no mercado, avançando, crescendo e atendendo bem os nossos clientes.

WMulher – Foi difícil se impor na sua carreira?

R - Não. Eu tive uma iniciativa própria e não somente um emprego. Eu coloquei o meu lado sonhador e de fantasia para funcionar e acreditei nele. Trabalhei muito com amor e desenvolvi um lado de negócios muito pessoal.

WMulher – E sobre a Páscoa?

R - Acabei de terminar a produção interna dos produtos da Páscoa. Eu fechei tudo, como projeto, em outubro do ano passado. Já estou pensando na Páscoa do ano que vem e com isso estou embarcando de viagem para os E.U.A e Europa para ver o que está acontecendo por lá’. Paralelamente, já estamos pensando e elaborando o “Festival de Morango” (marca registrada Amor aos Pedaços), que está no seu 13. ano. Ele começa em Maio e vai até Setembro e em torno de 50% das nossas vitrines são trabalhadas com o tema morango. Aliás, o casamento da fruta morango com o chocolate nunca dá desquite e nem divórcio: é o ideal!

WMulher – Quais são as datas mais representativas para vocês trabalharem?

R - Como na indústria da moda, nós fechamos o nosso calendário com 04 estações, que não são as mesmas estações do tempo, mas sim as épocas dessas datas que comemoramos:

Páscoa
Festival de Morango (de Maio a Setembro)
Festival do Chocolate – Chocohits ( de Setembro até o fim de Novembro)
Natal

Maria de Mello

Professora USP

Por: Domitila Farina

Onde está a vida que perdemos ao viver?

“A perda de qualidade (de vida) está relacionada com a perda do sentido... temos que ousar reinventar ou inventar o viver.. temos que preencher o tempo com qualidade.”

... e assim fala Maria de Mello, lingüista e professora universitária (PUC-USP). Apesar do fraseado objetivo e, aparentemente, simples, ela toca fundo na questão que aflige a humanidade no “internet-time”. Estamos todos correndo como o coelho (da “Alice no país das Maravilhas”) de Lewis Carroll, sempre atrasados, com mil tarefas na agenda. Em pleno lufa-lufa, aceitemos o convite da profa. De Mello para pararmos para refletir, até porque, amanhã já poderá ser tarde demais. O convite realmente vale muito à pena.

“Onde está a vida que perdermos ao viver?
Onde está a sabedoria que perdemos com o conhecimento? “

As duas perguntas, já formuladas pelo poeta T.S. Elliot, voltam à tona graças a nossa entrevistada. Ela também fala de seu trabalho desenvolvido na “Escola do Futuro” (USP) sobre “A Evolução Transdisciplinar na Educação” do CETRANS (Centro de Educação Transdisciplinar).

Maria de Mello ainda sugere a afetividade como antídoto à esquizofrenia que permeia os contatos humanos fruto da falta de diálogo do homem com ele mesmo e com os outros.

1. Profa. De Mello, por que do nome “A Escola do Futuro” da USP?
R - Porque respeitando o acervo do passado, procura atender às demandas do presente e antecipar as necessidades do futuro.

“A Escola do Futuro”’é um Laboratório de pesquisa interdisciplinar, cuja plataforma teórica se baseia nas exigências de uma sociedade de informação na qual as estratégias educacionais visam preparar futuras gerações com capacitações e conhecimentos apropriados às realidades tecnológicas e socio-econômicas globais, num contexto humanístico, Transdisciplinar. Daí termos uma missão clara que integra cinco “estocadas” básicas:

  • realizar investigações no tocante às atividades exercidas por docentes e discentes que otimizam a aprendizagem;
  • desenvolver e avaliar novos e inovadores métodos e materiais didáticos;
  • preparar novas gerações de investigadores que se preocupem com a inferface entre educação e comunicação;
  • promover a aceleração de intercâmbio de idéias e experiências entre educadores e instituições educativas;
  • servir como um modelo para parcerias entre os setores produtivos, governamentais, sociedade civil e os educadores do país e de nossa região, visando um novo patamar de justiça social e oportunidades para exercício pleno de cidadania.

2. Como lingüista, a senhora dá aula no Centro de Educação Transdiciplinar. Seria possível falar um pouco sobre a função transdiciplinar?
R - Fui docente do Departamento de Lingüística nas década de 60, 70 e 80 na PUC de Sorocaba, do Rio de Janeiro e de São Paulo. Minha atuação atual , juntamente com Vitória M. de Barros e Américo Sommerman, é de coordenadora do Projeto “A Evolução Transdisciplinar na Educação” abrigado na “A Escola do Futuro” da USP, desde 1998, cuja abrangência pode ser vista no site: www.cetrans.futuro.usp.br . Como decorrência desse projeto, foram publicados 3 livros de relevância para a pesquisa transdisciplinar: “O Manifesto da Transdisciplinaridade” de Basarab Nicolesco; “Transdisciplinaridade e o Real” de Michel Random; “Transdisciplinaridade e Educação” pela UNESCO.

3. Antes da internet, escrever uma carta fazia parte de todo um ritual que começava com a escolha do papel e a elaboração do tema, antes de colocá-lo no papel. Hoje, com a facilidade de deletar, as pessoas parecem não pensar muito no que vão escrever. Apesar da facilidade de serem corrigidos, os erros datilográficos são comuns. Apesar do tempo que ganhamos (não precisar ir ao correio, não ter de providenciar envelope, papel ou ter de refazer a mesma carta ), como a senhora explica a perda da qualidade e a falta de cerimônia do conteúdo do que se é veiculado?
R - A perda de qualidade está relacionada com a perda do SENTIDO. O instrumento virtual em si é maravilhoso, a dificuldade emerge da qualidade de percepção, comprometimento do ser humano que o utiliza. Não podemos atribuir o erro onde ele não está. A questão que se coloca é o que deve ser aprendido. Neste sentido, Jacques Delors (UNESCO, 1997) é claro quando propõe, no “Educação Um Tesouro a Descobrir”, os 4 pilares para a Educação no século XIX: 1) aprender a conhecer; 2) aprender a fazer; 3) aprender a viver em conjunto;
Aprender a ser. Diria que o ritual, seja para aquele que produz para a Internet como para aquele que a utiliza, deveria ser permeado por esses pilares e pelo Sentido.

4. Da mesma forma, o tempo ganho com a nova tecnologia, não está sendo utilizado para uma maior qualidade de vida, mais lazer. Pelo contrário. A nova geração parece estar trabalhando de 10 a 12 horas por dia. Trata-se de uma involução ou apenas um período de acomodação?
R - Novamente, não vamos usar a tecnologia como bode expiatório. Claro que a mudança foi extremamente rápida, a aceleração foi além de nosso rítmo biológico. Contudo, todos nós sabemos que há uma enorme defasagem entre as necessidades internas do ser humano e as necessidades de desenvolvimento da sociedade e as de interesses de desenvolvimento da sociedade. Esquecemos que a maior busca do ser humano é a felicidade. Não se trata da quantidade de horas trabalhadas, mas de nos remetermos a questões como: Por que estamos trabalhando? Como estamos trabalhando? Em nome do que estamos trabalhando? Não basta reinventar ou inventar o instrumento temos que ousar reinventar ou inventar o viver.

5. O que atraiu a senhora para a lingüística?
R - Primeiramente a afinidade com minha formação em língua Anglo-Germânicas e Literatura Inglesa e Americana. Depois o novo que se apresentava como uma ampliação de visão do que era a comunicação humana.

6. O que vem antes, o ovo, a falta de reflexão ou a linguagem desestruturada?
R - Existe simultaneidade e reciprocidade. Se existir uma anterioridade é a da Vontade de recriar o Sentido.

7. Qual o reflexo na formação do pensamento de um adolescente cuja fase de socialização acontece diante de um micro e cuja primeira namorada pode ser resultado de um blind-date arrumado via net?
R - Esbarramos aqui na relação virtual – atual – real . Como indica Pierre Lévy (1998): o virtual é real, ele apenas não é atual (material), não se atualiza fisicamente. Tocamos também aqui a questão dos níveis de realidade, um dos pilares da transdisciplinaridade.
O resultado desse encontro que teve seu início no ambiente real/virtual pode e, normalmente, é isso que acontece, vir a satisfazer apenas a um nível de realidade desse ser humano, ou seja, o do mundo dos 5 sentidos. Neste caso ele vai muito provavelmente nascer e logo morrer. O mesmo pode vir a acontecer se o contato se reduzir apenas a uma dimensão emocional e racional. Nesses casos a relação seria preenchida com prazer, alegria ou seus contrários, já que esses níveis se configuram num contexto de polaridade. Contudo, haverá a possibilidade de acontecer um encontro que remeta a outros níveis de realidade do Ser Humano, àquele que remete ao desejo da alma, que responde à aspirações mais sutis, e sempre presentes no âmago do ser. Se assim for, que maravilha! – Talvez , nesse caso, o virtual até se contente em ser real sem ser atual (material)!

8. Em uma de suas últimas palestras, a senhora mencionou a necessidade de a informação eficaz aliar-se a uma maior responsabilidade pessoal no campo da afetividade. A senhora poderia falar mais a respeito?
R - Sim. Para tal, teríamos que incorporar um pouco de Transdisciplinaridade na nossa visão, na nossa atitude e na nossa vida, dia a dia. Isso nos pediria também que:

  • Aprendêssemos a escutar;
  • Fossemos além da fragmentação e compartimentalização do nosso modo de ser, de fazer, de viver em conjunto e de ser e assim contemplássemos no nosso cotidiano as dimensões física , racional, emocional, afetiva, anímica e essencial que nos constituem.
  • Aprendêssemos a contextualizar o nosso interlocutor para que realmente o diálogo pudesse emergir, fosse criativo, e tivesse sentido. Nos sentíssemos em nossas ações reciprocamente livres e voluntariamente juntos. Lembro aqui as palavras de um um chefe índio americano, de cujo o nome e tribo não me recordo, mas que ouvi há uns anos atrás na Califórnia: “ensino apenas cinco coisas: ensino a escutar; ensino que tudo está relacionado; ensino que tudo muda; ensino que tudo está em movimento; ensino que nós pertencemos à Terra e não a Terra à gente.

9. A senhora não acha que o nosso timing afetivo é mais lento do que o ritmo ditado pela internet? Como conciliar essa falta de sincronia entre o meio e o conteúdo?
R - Temos que aprender a discernir, a priorizar, a escolher. Temos que aprender a descartar. Temos que aprender a antecipar, a participar de forma seletiva. Temos que preencher o tempo com qualidade. Mais que tudo, devemos utilizar a nossa inteligência e a nossa percepção para restituirmos o equilíbrio desse timing também através da inserção do BELO em nossas vidas. Temos que nos sentir autores desse nosso timing, que aceita a aceleração, pois ela é real no nível cósmico, mas o preencher com sentido. Ainda a pouco, li no livro de Daniel Mandurucu (2000) que seu avô índio lhe dizia que ninguém faz o rio correr mais depressa do que ele corre...

10. Os termos técnicos da computação são em inglês. Qual o impacto disso na auto-estima do brasileiro, via linguagem?
R - Na verdade, estamos nos comunicando em computês. Nossa estima deveria vir da nossa capacidade de expressarmos nossa identidade e ao mesmos tempo nos inserirmos num cenário transnacional, transpolítico, transreligioso, transcultural.

11. Como a senhora concilia a vida acadêmica com a sua pessoal? A senhora é casada, tem filhos? O que gosta de fazer no seu tempo livre? Gosta de ler, recomenda algum livro?
R - Com tranqüilidade. Sim, sou casada. Sim, tenho duas filhas e 3 netos. O tempo sempre é cheio e livre. Gosto de cultivar as relações, de música, de prática corporal, de aprofundar as questões de transcendência, de arte em geral, da natureza. Gosto muitíssimo de ler. Que livros recomendar? Seriam tantos, mas recomento os seguinte:

  • Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa Pinkola Estés, Ed. Rocco 1999
  • As Faces Eternas do Feminino, Ed. Triom, 1996
  • A Transdisciplinaridade e o Real, Ed. Triom 2000
  • A Divina Comédia, Dante
  • Poesias de: Juarroz, Adélia Machado, Michel Camus
  • O Rei , o Sábio, o Bufão Shafique Keshavjee, Novalexandria, 1999

12. Na sua opinião, como está o ser humano nesta virada de século?
R - Vamos falar da esperança. O ser humano nesta virada de século? O cenário se configura dentro de uma pluralidade. Coabitam: a falta do sentido; sofrimento pela exclusão; uma tomada de consciência a favor do desenvolvimento sustentável do homem e do ser humano.

13. O fato de o homem hoje pouco preocupar-se com o outro (social) não estaria sendo refletido na rala afetividade de seus contatos interpessoais?
R - Vamos mais uma vez ao que precede. Há uma esquizofrenia instalada. Se o homem não se ocupar em se relacionar consigo mesmo, como vai se relacionar com o outro e com os outros? Esta é uma um exercício desafiador e infindável.

14. Como a senhora analisa o problema de violência nos principais centros urbanos do país?
R - Problema complexo. Vale a pena notar que maior índice de criminalidade está nos países mais desenvolvidos. Esses dados foram largamente discutidos nos Simpósio Internacional sobre Criminalidade realizado em maio último em SP. A pobreza material não gera necessariamente a criminalidade; a pobreza do ser necessariamente gera a criminalidade. Todos sabemos que apenas na medida em que ações conjuntas responsáveis em muitas dimensões (política, social, econômica, espiritual) podem mudar a realidade atual. Mas cabe a cada um de nós ser ativo naquilo que puder.

15. Gostaria de falar sobre algo que não abordamos? Alguma mensagem para nossas internautas?
R - Sim, umas perguntas, já que vocês me fizeram tantas...

Como posso legitimar a mim mesmo?
Como posso legitimar o outro?

Se, como diz Basarab Nicolescu: “Amanhã será tarde demais”, deixo ainda mais duas perguntas:

O que quero conservar?
O que quero mudar?

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