Regina Guarita

Por: Mariana Sayad

No dia 02 de agosto de 1997, Regina Guarita resolveu apostar em uma nova proposta de vida e criou a Associação Arte de Despertar que trabalha a arte em projetos sociais, ou seja, leva a arte para aqueles que não têm acesso. A Associação trabalha com crianças, adolescentes e adultos das comunidade menos favorecidas e em hospitais. Quando o projeto nasceu, Regina não sabia exatamente o que estava buscando, mas com o amadurecimento da idéia, além de fundamentar seus objetivos, montou uma equipe de pessoas capacitadas a ajudá-la. Para conhecer um pouco mais sobre a Associação Arte de Despertar, acesse o site www.artedespertar.com.br

WM - Qual é a sua formação?

Regina - Artes Plásticas que é o que gosto e é o que sei fazer. É despertar com a arte.

WM - Como é que a senhora montou a Associação?

Regina - Saiu de uma proposta da minha vida, apesar de não ser muito clara inicialmente. Trabalhava com marketing de incentivo, quando fiz 50 anos parei com esse trabalho e fiz uma proposta da Associação, que não tinha esse formato. Iniciei trabalhando com ilustração e pequenos projetos gráficos, comecei a pensar nas crianças e a visualizar o que era exatamente o que estava buscando. Um dia rascunhei o que queria realmente, foi aí que surgiu o que é o projeto Arte de Despertar que é trabalhar a arte em projetos sociais. Qual arte? A literatura, artes plásticas, teatro e a música. De que forma? Com equipes que fossem até os lugares, não queria trabalhar num núcleo ou numa casa central. Porque indo até as pessoas, você consegue atingir as que jamais teriam acesso a esse tipo de arte que estava imaginando naquele momento. Sinceramente, não sabia se seria possível, mas hoje sei que está sendo possível. A partir daí fui procurar pessoas que tivessem formação para me ajudar a compor a associação, ou seja, a parte jurídica, a parte de fundamentação do projeto e a parte de arte educadores. Depois de fundamentado, comecei a procurar os espaços de trabalho: fui para a Aldeia SOS, em 1997, que é um tipo de creche que abriga as crianças que o juizado de menores manda e que passam lá dos 2 aos 14 anos. São dez casas, com oito crianças em cada, com mães sociais contratadas para cuidar delas. O ambiente é muito propício para um trabalho como esse, porque as crianças estão muito carentes de informações, de identidade, de amor e de família.
No mesmo ano, fui visitar o INCOR (Instituto do Coração) porque tinha o interesse de fazer um trabalho lá e houve essa oportunidade, pois fomos aceitos. Começamos a trabalhar também com crianças cardíacas, o objetivo era o mesmo, porém a colocação foi muito diferente, porque é um outro ambiente e as crianças estão lá de uma outra forma. Isso é muito interessante. Em 1998, fomos chamado pelo Hospital Albert Einstein para acompanhar o projeto Einstein na comunidade, que estava iniciando, na favela de Paraisópolis. As crianças vão até o centro do projeto na comunidade, trabalhamos com 250 crianças por semana.
Em 1999, fomos para o Instituto de Oncologia Pediátrica que é o Grupo de Apoio à criança e ao adolescente com Câncer, lá é um hospital muito novo. Todos eles tratam de crianças socialmente desfavorecidas, esse é o nosso interesse.
Em 2000, conseguimos trabalhar quatro projetos de uma forma muito eficiente. Pela primeira vez, através de um patrocínio que durou o ano todo conseguimos estruturar a Associação dentro dos nossos moldes, por isso, o ano de 2000 foi muito interessante porque nos aprofundamos no que fazíamos.
Em 2001, nós pudemos, com uma consultoria para aprendizado, criar um fortalecimento da instituição. Descobrimos que o Projeto, que até então dizia respeito aos quatro espaços de trabalho, não era o nosso único produto. Tínhamos outras possibilidades muito amplas de trabalho e que deveríamos estar diversificando a nossa proposta. Então, esse ano estamos começando o trabalho de divulgação do nome e de abertura da nossa proposta de trabalho, ou seja, estamos mostrando a cara mesmo com toda a coragem, porque temos certeza do que fazemos e já com resultados elaborados, constatados e fundamentados.

WM - Vocês têm ajuda de voluntários?

Regina - Estamos começando uma proposta de voluntariado, apesar do nosso projeto ser arte educativo e cultural, por isso, precisamos de pessoal formado nisso. De qualquer forma, acreditamos que o voluntário pode vir ajudar de uma forma interessante também. Hoje, estamos com duas pessoas que acabaram de se formar pela FAAP em Artes Plástica, que trabalham conosco no Instituto de Oncologia. Temos uma administradora de empresas, porém ela é artista plástica e está trabalhando conosco em fotografia. Temos uma pessoa formada em comunicação, que nos ajuda nessa área.

WM - A senhora faz mais alguma coisa, além da associação?

Regina - A Associação me toma o tempo integral. Inicialmente, achei que não seria assim. A questão é que você precisa se envolver de uma forma absolutamente profissional, para tornar a Associação com a proposta de uma empresa. Então, essa é a sugestão para o projeto social. Nós, que trabalhamos com o terceiro setor, sabemos da necessidade do trabalho vir com muita segurança e com muita fundamentação. Para isso, todo nosso pessoal trabalha como autônomo e recebe para isso. Temos um suporte jurídico, uma auditoria e uma contabilidade. Então, não dá para você diversificar com outras atividades. No máximo, um Yoga antes de começar o dia.

WM - E vale a pena toda essa dedicação?

Regina - Meu Deus do céu, não voltaria um dia atrás na minha vida. Já tive outros trabalhos, como já falei, sempre em propostas que tinham a ver com a arte. Sempre surgiram em momentos importantes na minha vida, mas nenhuma delas, foi tão importante quanto essa.

WM - É casada? Tem filhos?

Regina - Sou casada e tenho três filhos. Duas filhas, uma de 30 anos, outra de 28 e um filho de 24.

WM - Eles ajudam na Associação?

Regina - Não é que eles ajudam, a família inteira aposta na Associação. Eles a entendem como uma das grandes propostas da vida deles também. A primeira doação que a Associação recebeu, foi da minha filha mais velha. No final do ano de 97, ela me deu um cheque de presente. Não acreditava. Tanto que não queria depositar o cheque, queria guardá-lo para sempre. Desde daí, ela participa ativamente. Ela é publicitária e acabou de casar com outro publicitário. Minha segunda filha é nutricionista, que também está sempre trazendo pessoas. Meu filho está terminando agora a faculdade e o TCC (Tese de Conclusão de Curso) é sobre o fortalecimento do Terceiro Setor. Meu marido também está envolvido. Tento poupá-lo, mas de vez em quando, ele ajuda.

WM - Isso é bom porque dá para conciliar a vida em casa com a profissional?

Regina - Dá para conciliar, sem conflitos.

WM - Vocês trabalham as artes tanto com crianças, como para adolescentes e adultos?

Regina - Exatamente. Nossa proposta é trabalhar a arte através das linguagens da música, das artes plásticas, do teatro e da literatura. Não sei porque as crianças se adaptam em primeiro lugar, então, quando iniciamos algum trabalho novo, começamos por elas. Na Aldeia SOS, resolvemos trabalhar com as mães sociais também. Fizemos isso, porque queríamos que entendessem a necessidade das crianças em participar de um projeto como esse, como proposta para uma vida futura. Nos hospitais, as crianças precisam estar sempre com o seu acompanhante, principalmente no INCOR. Então, a vida é muito sofrida para eles, porque vivem numa tensão muito grande, além de largarem a família. Outra característica nossa é que vamos aos hospitais todos os dias, então quando chegamos, os adultos vêm em primeiro lugar.

WM - Além da boa vontade, o que uma pessoa precisa para abrir uma associação?

Regina - Não é nem vontade, é uma proposta de vida porque se não houver essa motivação não vai para frente, porque estamos num país em que nada favorece um projeto como esse. Você precisa descobrir qual é o próximo passo, porque o terceiro setor está começando a existir agora, então as leis não favorecem. Então, é preciso ter a certeza de que um movimento desse tipo dá certo e modifica. Só a vontade não dá, é uma proposta de vida mesmo. Por exemplo, muitos empresários se unem fazer projetos direcionados a projetos interessantes porque eles têm noção da necessidade de algo assim, da transformação que isso pode fazer num ambiente. Já que essa transformação não virá do governo, mas deles.

WM - Na sua opinião, o que é mais essencial na educação de uma criança?

Regina - Como nós trabalhamos com arte, claro que vou dizer que é a arte. Porém, a educação é importante. Mas se você tem uma criança sem possibilidade de aprendizado (de escola), arte surge com algo importante, porque é agradável e trabalha como o que o individuo tem de melhor, então ela transforma. Já, se a criança tem chance de aprendizado, mas é super fraca, a arte surge como uma proposta de despertar, vai estar educando para participar daquilo. Por último, dentro de uma escola, com condições de aprendizado normais, a arte também surge para organizar a cabeça, o raciocínio e o comportamento da pessoa.

WM - Quais são os projetos futuros?

Regina - Descobrimos que o Arte de Despertar tem propostas interessantes. Estamos com um projeto chamado "Capacitador", que visa capacitar grupos de pessoas em outros espaços. Isto é, em vez de levar uma equipe nossa aos espaços, nós capacitamos um grupo do próprio local que queira trabalhar e que tenham noções de arte. Isso é muito interessante, porque iniciar um trabalho novo dentro de um espaço, às vezes, é um pouco traumático, desta forma estaremos acabando com isso. Essa é uma proposta muito séria. Outro projeto é o de trabalhar em empresas, levando arte e cultura para eles. No momento, estamos montando uma estrutura para nos aproximarmos dos objetivos das empresas, com o nosso enfoque de trabalhar a arte.

WM - Como a senhora vê a arte no Brasil atualmente?

Regina - Tem que ser por estados, por exemplo, em São Paulo a arte é muito elitizada. Isso é ridículo. Fico muito feliz em assistir momentos importantes da deselitização, como por exemplo, aos domingos o Parque do Ibirapuera fica aberto para se ouvir todo o tipo de música. De uma certa forma, está havendo uma preocupação para que o cidadão tenha acesso a acontecimentos desse tipo, mas ainda é muito pouco. Então, existe uma camada da população que não tem acesso, essa é a camada é que queremos trabalhar. De uma certa forma, se tivesse mais acesso, esse pessoal compareceria e entenderia a arte como nós. Porque é algo que faz parte de todos. Concluindo, em São Paulo a arte ainda é muito elitizada e precisa ser muito trabalhada ainda. A arte popular, por exemplo, não é identificada como arte, ela é o resultado de uma proposta de um grupo que vive em condições de pobreza incríveis, mas faz arte. Se isso tivesse uma dimensão maior, haveria uma valorização maior do individuo e desse tipo de arte.

WM - Alguém que a senhora admira?

Regina - Essa é uma pergunta difícil, embora deveria ser fácil. Dentro da minha área, não citaria nomes, mas todas as pessoas que abriram espaços em suas vidas para se dedicarem a propostas sociais, que tiveram essa sensibilidade e disponibilidades. Isso serve não às pessoas que simplesmente fizeram uma doação ou deram um patrocínio e, sim, para quem abril espaços nas suas vidas para uma dedicação de alma e de coração para transformar a sociedades onde estão.

WM - Algum recado final para nossas leitoras?

Regina - Meu recado é justamente esse, para que essas pessoas parem e olhem para o lado, que percebam que hoje existe um momento importante acontecendo dentro da nossa sociedade: da conscientização da necessidade de um trabalho como esse. Se você fizer um pouquinho já será suficiente, ter a humildade de reconhecer que você não faz nada e poderia fazer e começar a pensar no assunto. Pois cada um de nós, pode modificar a nossa sociedade e se cada um fizer esse pouco, já teremos uma enorme modificação.

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Flavia Hesse
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